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A força de significado das mulheres que dão nomes às ruas, vilas e bairros do Recife

Conheça as histórias por trás dos nomes das ruas, vilas e bairros do Recife: da Amélia a Imperatriz, passando por Joana Bezerra

Por Marília Parente

Rua Amélia, importante via na Zona Norte do Recife, é exceção: maioria dos logradouros públicos na cidade leva nome de homens

12 de março é dia de comemorar o aniversário do Recife. Para homenagear a capital do estado, o Diario de Pernambuco montou um roteiro para um passeio histórico e afetivo pela memória das mulheres que deram nomes às ruas, vilas e bairros da cidade, que acorda nesta quinta com 489 anos.

Ao contrário da irmã, Olinda, não é feriado, é dia útil, de trabalho, uma vez que a data é simbólica. Não há registro do dia da fundação do então povoado, em 1537. Mas isso não é motivo para deixar de comemorar. Muito pelo contrário, a programação é extensa. Confira.

Amélia: a mulher, realmente, de verdade

Amélia Alves da Silva Oliveira é que era mulher de verdade. No final do século 19, a nora de Francisco Antônio de Oliveira, o Barão de Beberibe, entraria para história da cidade com a discrição de um gesto genuíno de solidariedade.

Após as fartas refeições em seu palacete, onde hoje funciona o Museu do Estado de Pernambuco (MPPE), Amélia depositava cestos com alimentos no oitão da casa, para alimentar os necessitados. Quem ia buscar comida, se acostumou a chamar o local de “Rua de Dona Amélia”.

 

“Cresci ouvindo minha mãe dizer que ela era muito caridosa. Tinha muita fartura e ela fazia uma panela a mais de comida para colocar na rua. Pessoas em situação de rua iam lá pegar as refeições que Amélia deixava, às escondidas, porque o esposo não podia saber”, diz Cacilda Medeiros, tataraneta de Amélia e de seu marido, Augusto Frederico de Oliveira, filho do Barão de Beberibe, conhecido com um dos maiores contrabandista de pessoas escravizadas para Pernambuco.

Deputado conservador, banqueiro e dono de terras, Augusto Frederico lutou ao lado do pai contra as revoluções liberais no estado, chegando em pegar em armas para combater a Revolução Praieira (1848-1850), que lutava por liberdade de imprensa, pelo fim do predomínio do latifúndio e contra a carestia de alimentos.

“Amélia era contra a escravidão. Tenho muito orgulho de ser descendente dela”, emociona-se Cristina Medeiros, que também é tataraneta de Amélia.

Pesquisa

Hoje uma das principais ruas na Zona Norte do Recife, a via é uma exceção. Intitulada “Nomes que Fazem uma Cidade”, uma pesquisa realizada em 2012 pela Secretaria de Direitos Humanos e Segurança Cidadã (SDHSC) do Recife constatou que, dos 11.761 logradouros públicos da cidade, apenas 561 levavam nomes de mulheres.

Militante histórica pelos Direitos Humanos e secretária da pasta responsável por articular a pesquisa, Amparo Araújo chama atenção para o fato de que, além de serem menos numerosas, as vias que recebem os nomes de mulheres costumam ser mais discretas e contam com menos circulação do que aquelas nomeadas em homenagem a homens.

Dentre os logradouros públicos catalogados apenas sete correspondem a avenidas e 25 dizem respeito a praças. Os demais locais identificados são refúgios (4), subidas (5) beco (01), travessas (81) e vilas (08).

“A gente constatou uma demonstração clara de misoginia estrutural. Mesmo as mulheres que são nomes de ruas têm algum parentesco com homens que supostamente foram importantes. Elas não são lembradas por seus próprios feitos”, afirma Amparo.

Amparo também destaca que, as mulheres lembradas, costumam ser brancas e oriundas das classes média e alta. “Acho que essa estatística poderia ser atualizada para que a gente tente mudar a mentalidade dos vereadores”, defende.

Além da via que homenageia Dona Amélia, a Rua Imperatriz Teresa Cristina, no bairro da Boa Vista, é uma das poucas ruas de destaque do Recife que levam o nome de uma mulher.

De acordo com o professor de História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico pernambucano (IAHGP), George Cabral, o local foi nomeado após visita o Imperador Dom Pedro II e sua esposa, a Imperatriz Tereza Cristina, ao Recife, em 1859.

“O local originalmente era chamado de Aterro da Boa Vista, porque foi um aterro feito para ligar a cabeceira da antiga ponte que existia no local [antes da Ponte da Boa Vista] com a crescente povoação da Boa Vista”, explica Cabral.

Memória de luta

Amparo Araújo lembra que, ao lado do ex-vereador do Recife Fernando Ferro (PT), participou da iniciativa que nomeou ruas da comunidade do Alto do Buriti, no bairro da Macaxeira, na Zona Norte, com os nomes de ativistas presos e torturados pela Ditadura Militar.

No topo do morro, estão eternizados os nomes de Anatália de Souza Alves de Melo, Sonia Maria Lopes Moraes, Ranúsia Alves Rodrigues e Philipe Reichstul, militantes do movimento comunista assassinadas pelos militares.

“Lá também estão as ruas Carlos Marighella e Manoel Lisboa. É uma forma de lembrar das pessoas mortas pelo regime”, acrescenta Amparo.

Bairros e vilas

A tese de doutorado "Arquitetas no Recife: uma leitura de gênero das parcerias entre casais de arquitetos formados na década de 1960", realizada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) por Andréa Halász Gáti Porto, ressalta que nomes de ruas, praças e monumentos que homenageiam indivíduos em todo o mundo são predominantemente masculinos.

A desigualdade em nominar tem sido debatida pelo movimento feminista, a exemplo da mobilização em torno da campanha da Associação Feminista Francesa que contou com bastante repercussão no ano de 2015, ao realizar um levantamento que apontou que apenas 2,6% dos espaços públicos de Paris levavam nomes de mulheres.

Em uma das ações, o grupo chegou a instalar placas temporárias em alguns logradouros, em homenagem a mulheres que marcaram a história, como Simone de Beauvoir e Nina Simone. No Recife, proprietários de terra nomearam alguns bairros em referência às esposas, a exemplo do que aconteceu com a Ilha de Joana Bezerra e o bairro da Madalena.

Entre as Zonas Norte e Oeste, o senhor de engenho Pedro Afonso Duro quis homenagear a esposa, Madalena Gonçalves. Já o bairro de Joana Bezerra alude à doação de terras ao município por um comerciante, chamado Belchior, cuja esposa chamava-se Joana Bezerra, lembra a pesquisa de Gáti Porto.

Segundo a tese, na base de uma política habitacional no Recife, um conjunto de vilas populares construídas pela Liga Social contra o Mocambo, durante a interventoria estadual de Agamenon Magalhães (1937-1945), foi concebida para atender a profissões majoritariamente femininas.

Cada vila recebeu a designação de gênero da classe de trabalhadoras a que visava, a exemplo das Vilas das Costureiras (1939-1941), no bairro de Santo Amaro, das Lavadeiras (1939-1942), em Areias, e das Cozinheiras (1948), também em Santo Amaro.

“Esses conjuntos habitacionais recifenses enfatizam o vínculo tradicional entre trabalhos domésticos – costurar, lavar, cozinhar – e a condição feminina, ainda que eles fossem realizados na forma de serviços profissionais remunerados, inclusive em fábricas”, destaca a pesquisa.

Nessas vilas, um determinado tipo de cidade nascia para atender às demandas das mulheres trabalhadoras. “Era preciso dotá-las de equipamentos pedagógicos de aperfeiçoamento de suas habilidades domésticas naturais: lavanderia coletiva, uma escola de arte culinária ou salas de costura”, acrescenta a tese.