Entre o Guinness e o luto: "superpintura" quer ressignificar comunidade de Jardim Monteverde, consternada por tragédia
Governo do Estado quer submeter intervenção artística em Jardim Monteverde ao Guiness Book; comunidade lida com luto de 44 vidas perdidas em deslizamento maio de 2022
Natural de São José do Egito, no Sertão do Pajeú pernambucano, Maria José Nunes perdeu a memória quando a chuva virou motivo de tristeza. Aos 89 anos, ela garante que os esquecimentos cotidianos (“se já tomei café e se já almocei”) só começaram em maio de 2022, quando o deslizamento de três barreiras em Jardim Monteverde, na divisa entre Recife e Jaboatão dos Guararpes, onde mora há 10 anos, matou 44 pessoas, das quais 12 eram de sua família. Agora, da porta de casa, ela observa o início da “superpintura” promovida pelo Governo do Estado em uma encosta próxima, com o objetivo de “ressignificar a área” após a tragédia.
A obra abrange três encostas, com uma intervenção artística que totaliza 40 mil metros quadrados. Segundo a gestão estadual, a intervenção é tão grande que será inscrita no Guinness Book, o Livro dos Recordes. “A ideia é trazer cores. Uma coisa alegre, né?”, diz Glauber Monteiro, conhecido como Arbus, um dos seis artistas contratados para o projeto.
"Por um lado é bom, porque apaga mais a memória da gente. Mas o que tem em mim, não sai mais não”, resume Maria José, ao opinar sobre a obra.
No dia 22 de maio de 2022, enquanto a terra tremia de medo, o pequeno Richarlison, de 12 anos, tinha resolvido permanecer na barreira por alguns alguns instantes, decidido a resgatar sua mãe. “Chacho”, como chamava dona Maria, era seu neto de consideração e companheiro de todas as horas.
Ele e o primo Ryan teriam furado a parede de casa, retirado a família e encontrado um caminho em meio à lama rumo à planície. “E deu tempo? Deu tempo não, meu Deus. Acabou foi tudo”, lamenta Maria.
O estrondo provocado pelo deslizamento da barreira acordou dona Maria com um enorme susto. Seu corpo estava em uma espécie de alerta desde a noite anterior, quando se deitou debaixo de fortes chuvas, preocupada com os sulcos que se aprofundavam na encosta. “Eu não vi nada, eu não fui nem olhar. Depois disso, eu peguei um esquecimento”, completa.
Memória: uma casa em ruínas
Antes de encontrar um chão com um forte impacto, a barreira ainda atingiu o conjunto de casas que ficavam localizadas no sopé da encosta. No local, segundo a comunidade, cerca de outras vinte pessoas morreram.
Agora, contemplada pelo projeto de grafitagem, a área conta com cerca de 40 trabalhadores, que atuam na construção de um novo espaço de convivência para Jardim Monteverde. Todas as casas que existiam no lugar foram desapropriadas e demolidas, exceto uma.
“Meu filho tinha comprado essa casa há 11 anos. Agora, ele quer indenização. Está na Justiça, mas ainda não recebeu”, conta Maria José.
À medida que o impasse judicial se prolonga, a antiga casa do filho de dona Maria vai sendo circundada por uma fileira de pedras enormes e acinzentadas. Em pouco tempo, elas constituirão um muro que separará a residência da área revitalizada.
Diante das ruínas em tijolo aparente, é impossível saber se a casa já teve cor ou pintura. Uma porta de madeira atravessada há quatro anos na entrada, convida o olhar para o interior de um painel de cerâmicas ainda intacto. Um sofá segue soterrado por paredes de ruíram e os cômodos, tomados por barro endurecido.
“Ali morreram minha filha, minha nora e meus netos. Meu filho escapou. Eu nunca fui olhar”, lamenta dona Maria.
“No desenho dessa boneca, era a casa da minha avó”
Em quinze minutos debaixo da terra, a primeira angústia é a imobilidade física completa. Em seguida, lembra o graniteiro Thiago Aguiar, de 24 anos, a pressão extrema do barro nos músculos e ossos vai dificultando a respiração. “Depois, a pessoa desmaia. Uma parte do meu rosto, ficou do lado de fora da terra. Quando acordei, meus olhos estavam roxos e já tinha um monte de gente ao redor”, conta ele, que foi resgatado por vizinhos no deslizamento de maio de 2022.
Bisneto de Maria José, Thiago também subiu na barreira na tentativa de tirar sua mãe e sua avó de casa. Pouco tempo antes disso, ele já tinha conseguido resgatar a tia, com as duas pernas quebradas, de outra encosta que desabou. “Ali, no desenho dessa boneca, era a casa da minha avó. Ficamos só eu e meu pai”, diz.
Atualmente morador da Rua Pico da Peva, Thiago vive de frente para a barreira, agora em obras, onde perdeu sua família. De semblante tranquilo, o jovem é atencioso e fala pacientemente sobre os deslizamentos de 2022. “O pessoal pergunta como não fiquei doente da cabeça depois de tudo. Não sei mesmo. A fé nos salva”, comenta.
Com a perda da casa própria, Thiago e o pai pagam aluguel no valor de R$ 550 e não pensam em sair da comunidade. O jovem diz que a vida seguiu e que, a despeito de morar de frente para onde tudo aconteceu, a paisagem de Jardim Monteverde não o abala mais.
“Foi uma cena de guerra. Quando olho para lá, eu vejo”, conclui.