Cemit avalia possível fechamento temporário da Praia de Del Chifre após novos incidentes com tubarões
Avaliação considera riscos ambientais, padrões de comportamento dos tubarões e impactos do ser humano.
A Praia de Del Chifre, em Olinda, pode ter o acesso ao banho de mar temporariamente interditado após a recomendação em análise pelo Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). A possibilidade está sendo discutida com base em critérios técnicos e científicos, após um adolescente de 13 anos morrer em decorrência de uma mordida de tubarão. É o sexto caso na praia.
De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas), o Cemit está elaborando uma Nota Técnica que irá embasar a recomendação de um eventual fechamento temporário da praia. O documento reúne contribuições de especialistas de diferentes áreas e considera aspectos oceanográficos da região, padrões ecológicos das espécies de tubarões associadas aos incidentes na Região Metropolitana do Recife e impactos antrópicos, como a qualidade da água.
A construção da nota ocorre de forma participativa, com envolvimento de representantes da comunidade local. A minuta será apresentada na primeira reunião ordinária do Cemit, marcada para o dia 26 de fevereiro. Após a apresentação, os membros do colegiado deverão votar pela aprovação ou não do documento, que posteriormente seguirá os trâmites legais para análise pelos órgãos competentes.
Atualmente, não há definição sobre como uma eventual interdição seria implementada. Segundo a Semas, esse debate só ocorrerá caso a recomendação do Cemit seja acatada pelas instâncias responsáveis. Desde 1992, Pernambuco contabiliza 82 incidentes com tubarão, sendo a maioria no Grande Recife.
Risco elevado e restrições já existentes
A Praia de Del Chifre está inserida no trecho do litoral pernambucano classificado como área de risco para incidentes com tubarões, conforme o Decreto Estadual nº 21.402/1999, que abrange cerca de 33 quilômetros entre a Praia do Farol, em Olinda, e o Paiva, no Cabo de Santo Agostinho. Nesse trecho, a prática de esportes náuticos é proibida.
No caso específico de Del Chifre, a ausência de barreiras recifais e a presença de mar aberto aumentam o risco de aproximação de animais marinhos em áreas rasas, tornando o banho de mar considerado de alto risco. A secretaria pede para que a população respeite as orientações de segurança e a sinalização existente.
Atualmente, a única proibição formal de banho de mar por decreto ocorre em um trecho de 2,2 quilômetros da Praia de Piedade, no município de Jaboatão dos Guararapes, conforme o Decreto Municipal nº 79/2021.
Ações educativas e de monitoramento
Segundo a Semas, a Praia de Del Chifre integra de forma permanente as ações educativas e preventivas desenvolvidas pelo estado para reduzir incidentes com tubarões. Entre as medidas em curso estão atividades presenciais com participação do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), incluindo orientações diretas aos banhistas, ações educativas e atividades lúdicas.
A área conta ainda com rondas contínuas de guarda-vidas, monitoramento por motos aquáticas e placas de alerta instaladas desde 2025, indicando o risco de incidentes com tubarões. A divulgação de alertas e conteúdos educativos também tem sido intensificada, especialmente em períodos de maior fluxo de pessoas.
Além disso, projetos financiados pela Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe) vêm sendo executados no território, com foco em educação ambiental, capacitação de educadores e mobilização comunitária. As iniciativas incluem ações em escolas, atividades com moradores e mutirões de limpeza, com novas atividades previstas para 2026.
No âmbito municipal, a Prefeitura de Olinda realiza ações complementares, como o uso de drones para monitoramento costeiro, aprimoramento de protocolos preventivos e ampliação de atividades socioeducativas voltadas à comunidade local.
A secretaria informou que, até o momento, não há indícios claros de mudanças ambientais recentes que expliquem a recorrência dos incidentes. No entanto, essa avaliação poderá ser aprofundada com a retomada do monitoramento científico dos tubarões no litoral pernambucano, após 11 anos.
O estudo será viabilizado por meio de edital da Facepe, no âmbito do programa Cientista Arretado, e prevê a marcação de tubarões com tecnologia de chipagem para acompanhamento dos padrões de deslocamento dos animais na RMR. A proposta é identificar áreas com maior e menor risco de incidentes e disponibilizar os dados, quase em tempo real, em uma plataforma digital acessível à população e aos órgãos do Cemit.
As inscrições para a primeira fase do edital seguem abertas até 2 de março, e a contratação do projeto vencedor está prevista para maio de 2026. A iniciativa adota práticas semelhantes às utilizadas em países como Austrália e África do Sul, com foco em abordagens não letais, baseadas em evidências científicas e comunicação preventiva.
O monitoramento terá como área prioritária o trecho de 33 quilômetros entre o Cabo de Santo Agostinho e Olinda, sem descartar a possibilidade de inclusão de outras praias do litoral pernambucano, a depender dos resultados do estudo.