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Dragagem do Rio Beberibe: o drama das comunidades ribeirinhas com as enchentes

Reportagem do Diario de Pernambuco conversou com os ribeirinhos no dia em que foi publicado o edital de licitação para obra de dragagem do Rio Beberibe

Por Cadu Silva

Vanessa Cristina, de 44 anos, e o companheiro João Alves, de 64 anos; Residente da comunidade do Arco-íris há 15 anos

Foi publicado no Diário Oficial do Estado de Pernambucodesta quinta-feira (29), o edital de licitação para as obras de dragagem do Rio Beberibe, no trecho entre o Recife e Olinda.

A reportagem do Diario de Pernambuco visitou, nesta manhã, uma comunidade ribeirinha da região, que assim como tantas outras, enfrenta problemas com as recorrentes cheias do Rio Beberibe.

Comunidade Arco-Íris

As casas se espalham pelas margens do rio, na comunidade do Arco-Íris, no bairro do Arruda, na Zona Norte do Recife. Muitas delas de palafitas e construídas a poucos metros da água, em áreas historicamente atingidas por alagamentos.

Em períodos de chuva intensa, o rio transborda, invade residências e transforma a rotina de várias famílias em uma sequência de perdas, deslocamentos forçados e medo constante.

Sem alternativas habitacionais, os moradores permanecem há décadas expostos à água contaminada e à insegurança.

É o caso de Vanessa Cristina, com 44 anos e mãe de 7 filhos. Ela conta que, quando morava na parte da mais baixa da comunidade, teve sua casa invadida pela água durante uma madrugada devido à forte chuva.

Na ocasião, percebeu que o colchão da cama onde dormia o filho, de apenas dois meses, boiava dentro da residência.

“Quando olhei, a água já estava passando na cama. O colchão estava flutuando com o bebê em cima”, relembra a moradora, agradecendo a Deus que o colchão ainda estava coberto com o plástico, o que possibilitou que ele boiasse.

Histórias como a de Vanessa se repetem ao longo do curso do Beberibe. De acordo com moradores, na parte mais baixa da comunidade, a água chega na cintura, obrigando a população a sair às pressas, deixando casas cobertas por lama.

“A maré subiu e levou tudo. Quando a água baixa, fica só lama dentro de casa”, conta Benedita Maria da Silva, de 60 anos, moradora da comunidade há mais de 30.

“Aqui, vira uma bacia. Fica cavalo morto, porco morto, cachorro morto. Não desce, fica tudo preso aqui atrás”, relata.

O marido, Laércio de Araújo, também de 60 anos, afirma que já precisou pagar diversas vezes para que os cadáveres dos animais fossem retirados da água.

“Quando enche, leva para cima. Quando seca, fica aqui de novo. Já perdi a conta de quanto paguei para puxar bicho morto.”

Segundo o casal, durante as cheias mais severas, eles são obrigados a deixar a casa e se abrigarem em uma igreja que fica em frente à residência.

“Já dormimos na rua e já pedimos a chave da igreja para passar a noite. Aqui, não dá para comer nem dormir quando a água entra”, diz Laércio.

Ainda de acordo com ele, já houve situações onde o casal passou dias com água na altura da cintura.

 

Impacto na saúde

Além das perdas materiais, os moradores relatam impactos diretos na saúde. O contato frequente com a água suja e contaminada, segundo eles, provoca doenças e agrava problemas já existentes. “A gente adoece. Essa água não presta”, afirma Laércio.

Dona Cleide Maria, de 51 anos, também convive com as enchentes há mais de 30 anos.

Segundo o relato, em uma das cheias, a filha perdeu todos os móveis da casa além das roupas do bebê, que na época era um recém-nascido.

“Perdeu a geladeira, a cama, perdeu tudo. A casa encheu todinha”, conta.

Após o episódio, Cleide, enviou a filha e o neto autista, que hoje tem 8 anos, para morar em Olinda, longe das enchentes, principalmente no período de chuvas. “Eles não podem ficar aqui quando enche.”

Para os moradores, sair da área de risco não é uma escolha simples. A maioria depende de benefícios sociais, como o bolsa família, e não tem condições financeiras de arcar com aluguel ou financiamento de uma casa fora da comunidade. “A gente fica porque não tem para onde ir”, resumiu Cleide.

A drenagem do Rio Beberibe

Sobre as obras de dragagem do Rio Beberibe, os moradores ribeirinhos têm a expectativa de que a intervenção ajude a diminuir a frequência e a intensidade das enchentes.

“Se diminuir a enchente, já ajuda muito. A gente não perde o pouco que tem e não precisa dormir na rua”, afirma Dona Benedita.

Alguns moradores, no entanto, acreditam que as obras, apenas, não resolvam o problema deles.

“Ajuda, mas não resolve tudo. O certo seria nos tirar desse local e pôr em outro com condições mais dignas", disse Cleide.

Vanessa também vê a drenagem como um alívio parcial. “Qualquer coisa que faça a água baixar já ajuda. Mas enquanto a gente morar aqui, o medo continua”, afirma.