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Campanha ao Senado teve atritos internos, batalha por suplência e estabilidade nas pesquisas

Disputa por duas vagas reservadas para Pernambuco foi movimentada nos bastidores e contou com reforços de presidenciáveis

Por Amauri Lins

Candidatos ao Senado por Pernambuco

A disputa em torno das duas cadeiras destinadas a Pernambuco nas eleições de 2026 para o Senado Federal foi marcada por movimentações intensas de bastidores, antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral. Na coligação Pernambuco de Coração, da governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD), o principal embate ocorreu entre Eduardo da Fonte (PP) e Miguel Coelho (União Brasil), cujos partidos integram a Federação União Progressista.

Apesar da deliberação do diretório estadual da federação em favor de Eduardo, Miguel passou a pleitear espaço na chapa majoritária da governadora. O imbróglio chegou a envolver a mediação dos copresidentes nacionais do grupo político, Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil). Às vésperas das convenções de ambas as siglas e da federação, após reunião com Raquel, Miguel optou por retirar a candidatura e migrar para a disputa para deputado federal.

Apesar da aparente resolução, o impasse teve como consequência direta a decisão do diretório estadual do União Brasil de não participar ativamente da disputa majoritária junto à coligação integrada pela federação. Dessa forma, o primeiro ato público de Miguel Coelho após a desistência foi a declaração de apoio à candidatura avulsa de Mendonça Filho (PL) à Casa Alta. Apenas no dia 16 de agosto, na largada oficial da campanha, a família Coelho tornou público o apoio a Eduardo da Fonte durante um comício com a chapa majoritária em Petrolina.

Em meio ao dilema entre Eduardo e Miguel, a possibilidade de uma candidatura de ambos chegou a ser cogitada, mas esbarrou em Túlio Gadêlha (PSD), nome anunciado desde o início de agosto no período das convenções partidárias. A inclusão de Túlio na chapa de Raquel buscou uma proximidade maior com o campo progressista, inclusive com o presidente Lula, a quem o candidato fez questão de não esconder o apoio. O deputado federal se tornou o braço-direito da governadora, acompanhando-a em debates, sabatinas e até mesmo em agendas institucionais.

Disputa intensa pelo vínculo a Raquel

Ao longo da campanha, a chapa de Raquel Lyra buscou demonstrar unidade, com agendas comuns compartilhadas pela vice-governadora Priscila Krause (PSD) e pelos candidatos ao Senado Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha. No entanto, a chegada de Mendonça Filho à disputa passou a representar um incômodo para o grupo político. Como o Partido Liberal não compôs oficialmente nenhum palanque para o Executivo estadual, Mendonça buscou uma aproximação com Raquel e ingressou na campanha à reeleição da governadora.

Além de marcar presença em atos de rua e defender a candidata em entrevistas, Mendonça também passou a utilizar a imagem de Raquel em seu guia eleitoral. A postura motivou uma ação judicial no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE), assinada por Túlio e Eduardo, cobrando a retirada de uma propaganda em que Mendonça sugeria um vínculo com Raquel, o que poderia confundir os eleitores. A Justiça Eleitoral chegou a acolher o pedido, mas a liminar foi suspensa dias depois e Mendonça autorizado a mencionar a governadora em seu guia.

Para além do embate judicial, o atrito também se fez presente nos discursos de Mendonça Filho. Em entrevista após uma sabatina na Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (FIEPE), o liberal classificou Eduardo da Fonte de “senadorzinho” e afirmou que o incômodo dos candidatos adversários com sua propaganda eleitoral seria “ciúme de macho”.

O ex-ministro voltou a subir o tom durante o comício com o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), realizado em setembro no Bairro do Recife. Na ocasião, Mendonça apelidou Eduardo de “melancia”, uma vez que, segundo ele, o progressista seria “verde por fora e vermelho por dentro”. “Quando o cara diz que não é de esquerda nem de direita, é porque ele é de esquerda. Votar em Mendonça Filho e votar em Eduardo da Fonte é tirar um voto meu. Não pode votar em Eduardo da Fonte não”, disse em discurso ao público presente.

“Time de Lula” buscou unidade e manteve liderança

Em contraponto aos embates internos travados pelos adversários, a chapa da Frente Popular de Pernambuco buscou demonstrar unidade desde o período das convenções partidárias. No dia 2 de agosto, ao lado do vice-presidente da República Geraldo Alckmin (PSB), o grupo político apresentou o chamado “time de Lula” na disputa majoritária do estado, composto pelo candidato a governador João Campos (PSB), pelo candidato a vice-governador Carlos Costa (Republicanos) e pelos postulantes ao Senado Federal Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT).

Ao longo da campanha, Marília e Humberto buscaram constantemente a vinculação a Lula, seja nos materiais gráficos de campanha, nos discursos em comícios ou nos vídeos para o guia eleitoral gravados ao lado do presidenciável petista. No dia 25 de setembro, o presidente esteve em Pernambuco para um ato público que reuniu cerca de 80 mil pessoas, de acordo com a estimativa da organização. A manifestação foi vista como uma demonstração de força do campo político e rendeu um novo fôlego para a reta final de campanha.

A dupla de postulantes da Frente Popular para a Casa Alta também se manteve entre as primeiras posições nas principais pesquisas realizadas ao longo da campanha por institutos como Quaest e Datafolha. A liderança ficou com Marília Arraes, que oscilou entre 15% e 19%, mas permaneceu numericamente à frente em todos os levantamentos. Humberto Costa esteve como segundo colocado, mas com uma margem menor frente a Mendonça Filho e Eduardo da Fonte, chegando a configurar empate técnico dentro da margem de erro em algumas ocasiões.

Nos últimos dias de campanha, Marília e Humberto também receberam o apoio do diretório estadual do PSOL em Pernambuco. A legenda, que atualmente compõe federação com a Rede Sustentabilidade e tem como único candidato ao Senado Paulo Rubem Santiago (Rede), orientou sua militância para que o segundo voto seja nos candidatos da Frente Popular.

Suplência ganhou destaque

A disputa pelas vagas na suplência dos candidatos ao Senado ganhou um destaque especial no pleito deste ano. O objetivo do cargo é assumir o lugar do senador em situações de afastamento por licença médica, missões diplomáticas ou quando o parlamentar assume um cargo no Executivo. No embate com Eduardo da Fonte, uma das “moedas de troca” utilizadas por Miguel Coelho para aceitar se retirar da disputa foi a possibilidade de indicar Carlos Andrade de Lima (União), do seu grupo político, para compor a candidatura de Eduardo como primeiro suplente.

Já Túlio Gadêlha, pretendia contar com o ex-secretário de Mobilidade e Infraestrutura de Pernambuco André Teixeira Filho para compor a sua suplência. No entanto, André declinou do cargo para se dedicar à coordenação da campanha de Raquel à reeleição. O episódio motivou rumores sobre uma possível desistência de Túlio da disputa. Dias depois, o candidato apresentou os nomes da ex-deputada estadual Dulci Amorim (PSD) e do cacique Marcelo Pankararu (Avante) para compor a chapa como primeiro e segundo suplentes, respectivamente.

Para Marília Arraes, a composição da suplência rendeu a perda do apoio do deputado estadual Álvaro Porto (MDB), atual presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Álvaro tentou indicar o filho mais velho e ex-prefeito de Quipapá, Alvinho Filho, para primeiro suplente, o que não foi aceito por Marília. Em nota, o deputado argumentou que a indicação faria parte de um acordo firmado anteriormente e que não teria sido cumprido pela candidata. Marília, por sua vez, minimizou o atrito e afirmou que “quando um não quer, dois não brigam”.

Debates ressaltaram diferenças

O confronto direto promovido pelos debates contribuiu para aprofundar as diferenças ideológicas e de posicionamento entre as candidaturas. No evento promovido em Caruaru pela Rádio Cultura do Nordeste, em parceria com o Diario de Pernambuco e a TV Nova Nordeste, no dia 10 de setembro, a troca de ataques ficou em evidência e superou a discussão em torno de propostas.

Marília Arraes acusou Túlio Gadêlha de machista quando o deputado mencionou os atritos políticos anteriores da candidata com familiares. “É uma pena, Túlio. O seu eleitor não merecia que você tivesse esse destino”, provocou Marília, após afirmar que mulheres que têm firmeza de suas convicções são chamadas de “brigonas”.

Em outro momento, Marília também teve um embate com Mendonça Filho e classificou o candidato como "filhote da ditadura", questionando-o sobre o posicionamento em relação à tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. O liberal, por sua vez, alegou ser um "democrata" e criticou a forma que o processo foi conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Mendonça também pressionou Eduardo da Fonte a se posicionar no cenário nacional e questionou diretamente o progressista sobre o seu voto para a Presidência da República. “Eu voto em Pernambuco”, respondeu Eduardo ao reforçar o apoio à governadora Raquel Lyra.

Em uma de suas intervenções, Humberto Costa também teceu duras críticas a Mendonça, em relação ao período em que o liberal atuou como ministro da Educação do governo de Michel Temer (MDB). O senador petista apelidou o adversário de “mãos de tesoura”, em referência a um suposto corte de recursos para a área. Em resposta, Mendonça afirmou que manteve coerência em sua trajetória política e sempre esteve na oposição aos governos petistas, além de reafirmar o apoio a Raquel Lyra e Flávio Bolsonaro nas eleições deste ano.