° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Quem é quem no caso "Dark Horse": conheça os personagens e a linha do tempo

Investigação da PF apura se uma rede que cruza cinema, política e mercado financeiro usou recursos públicos para bancar a cinebiografia de Jair Bolsonaro

Por Nilton Vilanova

Mário Frias, deputado federal e ex-secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro; Karina Gama, produtora do filme "Dark Horse"; Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência da República; e Daniel Vorcaro, empresário e ex-acionista majoritário do Banco Master.

O deputado Mário Frias foi alvo, nesta quinta-feira (10), de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal (PF), dentro de uma investigação sobre o financiamento do filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O caso reúne nomes do cinema, da política e do mercado financeiro, reunidos em torno de uma mesma suspeita - a de que dinheiro público, oriundo de emendas parlamentares, e recursos de origem duvidosa, ligados a um banco liquidado por fraude, foram usados para bancar a produção, após passar por uma cadeia de empresas e por um fundo sediado no exterior.

Como o esquema teria funcionado

Segundo a PF, o dinheiro não teria ido direto do financiador para a produtora do filme. O caminho suspeito tem, basicamente, três etapas:

A origem do dinheiro

De um lado, o deputado Mário Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares - dinheiro público que cada deputado e senador pode indicar para obras ou projetos - a uma organização não governamental (ONG) ligada à produção do filme. De outro lado, o banqueiro Daniel Vorcaro teria enviado dezenas de milhões de reais próprios, ou de origem duvidosa, por fora dessa conta pública.

A subcontratação

A ONG que recebeu as emendas, em vez de executar o serviço ela mesma, teria repassado o dinheiro a outras empresas, chamadas de subcontratadas, para supostamente realizar o trabalho. O problema, segundo a PF, é que essas subcontratadas não comprovaram que de fato prestaram o serviço pelo qual foram pagas. Na prática, é como se o dinheiro tivesse sido "emprestado" a empresas de fachada, sem entrega real, para depois seguir para outro destino.

O destino final

Parte dos recursos ligados a Vorcaro teria passado por uma empresa de investimentos brasileira e, na sequência, por um fundo sediado nos Estados Unidos, até chegar à produção do filme.

A PF investiga se esse desenho, emendas indo para uma ONG, que repassa a subcontratadas sem comprovar serviço prestado, foi montado justamente para dificultar o rastreamento do dinheiro público.

Quem é quem no Caso Dark Horse:

- Mário Frias (PL-SP)

Deputado federal, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, produtor-executivo do filme e autor da história em que o roteiro se baseia.

Frias é o alvo da busca e apreensão desta quinta-feira, suspeito de destinar cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares a uma entidade ligada à produção.

- Karina Gama

Dona da produtora GoUp Entertainment, responsável pelo filme. Afirmou publicamente que Daniel Vorcaro respondeu por mais de 90% da verba que viabilizou a produção.

- Flávio Bolsonaro

Senador e pré-candidato à Presidência pelo PL, filho de Jair Bolsonaro. Negociou diretamente com Vorcaro a captação de recursos para o filme e, depois que mensagens vazaram, admitiu publicamente ter mentido ao negar relação com o banqueiro.

- Eduardo Bolsonaro

Ex-deputado, outro filho de Jair Bolsonaro, hoje nos Estados Unidos. Nega ter recebido dinheiro do fundo usado para financiar o filme e diz que sua participação se limitou à cessão de direitos de imagem.

- Daniel Vorcaro

Ex-controlador do Banco Master, banco liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 em meio a suspeita de fraude bilionária. Preso e solto mais de uma vez desde então, seria o maior financiador individual do filme.

- Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro"

Operador do mercado financeiro. Fechou delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e confirmou ter intermediado o envio de recursos ao exterior a pedido de Vorcaro.

- Paulo Calixto

Advogado de imigração ligado a Eduardo Bolsonaro, administrador do Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas (EUA) por onde o dinheiro teria passado antes de chegar à produção.

- Fabiano Zettel

Cunhado de Vorcaro, apontado pela PF como um de seus principais operadores financeiros.

- André Mendonça e Flávio Dino

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que relatam, cada um, uma frente distinta da investigação: Mendonça cuida dos repasses ligados a Vorcaro e ao Banco Master; Dino, do uso das emendas parlamentares, frente que embasou a operação desta quinta contra Frias.

Confira a evolução do caso:

- 18 de novembro de 2025

A PF deflagra a primeira fase da Operação Compliance Zero, prende Daniel Vorcaro e o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, sob suspeita de fraude bilionária no mercado financeiro.

- 28 de novembro de 2025

A prisão de Vorcaro é revogada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1); ele passa a usar tornozeleira eletrônica.

- 14 de janeiro de 2026

Deflagração da segunda fase da Compliance Zero. Vorcaro não é preso, mas tem bens bloqueados; nessa época, o caso ainda estava sob relatoria do ministro Dias Toffoli.

- Fevereiro de 2026

O ministro André Mendonça assume a relatoria do caso Master no STF, no lugar de Toffoli.

- 4 de março de 2026

Terceira fase da operação; Vorcaro é preso novamente, agora por decisão de Mendonça.

- Maio de 2026

O site Intercept Brasil revela mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro cobra recursos de Vorcaro para financiar o filme, o primeiro sinal público de que "Dark Horse" e o caso Master estavam ligados.

- 2 de junho de 2026

Reportagens revelam que Mário Frias destinou emendas parlamentares a entidades ligadas à produção; a Polícia Civil de São Paulo já apurava, em paralelo, um contrato dessas entidades com a prefeitura da capital paulista.

- Setembro de 2026

"Mineiro" formaliza delação premiada à PGR, confirmando o envio de recursos ao fundo Havengate a pedido de Vorcaro.

- 1º de setembro de 2026

Mendonça retira o sigilo de uma investigação sobre a relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, dando início à atual crise institucional no STF.

- 8 de setembro de 2026

Mendonça afasta preventivamente o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada.

- 9 de setembro de 2026

Flávio Dino reintegra os dois ao cargo, em decisão tomada dentro do processo sobre as emendas do Dark Horse.

- 10 de setembro de 2026

A PF deflagra a Operação Make Up, com 49 mandados de busca e apreensão, entre eles o cumprido contra Mário Frias.