O dia em que 222 mil pernambucanos votaram pela volta da Monarquia
Brasileiros foram às urnas em 1993 para escolher em um plebiscito a forma e o sistema de governo diante da instabilidade com impeachment de Fernando Collor
Em 21 de abril de 1993, cerca de 66,2 milhões de eleitores foram às urnas em plebiscito nacional, por determinação constitucional. Os votos eram para escolher a forma e o sistema de governo a ser adotado no Brasil, e a República e o sistema presidencialista de governo foram mantidos pela população. No entanto, cerca de 6,7 milhões de brasileiros, sendo 222.020 pernambucanos, votaram pela volta da Monarquia.
Doutora em História e vice-diretora do Departamento de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Marcília Gama explica que o plebiscito de 1993 aconteceu porque se considerou que o presidencialismo não conseguiria resolver os problemas da República Brasileira.
Ela detalha que, no período, o país vivia o impeachment de Collor e a ascensão de Itamar Franco, e instabilidade econômica. “Eles (políticos defensores da ideia) diziam que a solução para essa instabilidade seria o retorno constitucional da monarquia, em que a gente tem uma tradição de governabilidade que foi muito feliz, muito estável, sobretudo na administração de Dom Pedro II”, afirma Marcília.
A edição do dia 22 de abril de 1993 do Diario, que reportou os acontecimentos do dia da votação, trouxe o comentário da aposentada Maria do Carmo Silva, 62 anos, que ilustra o que a historiadora diz. “O plebiscito não muda nada, o que deveria mudar é o caráter dos políticos”, criticou a aposentada à época. A reportagem ainda narra que o plebiscito não entusiasmou o eleitorado recifense, que, se compareceu às urnas, foi pelo fato de o voto ser obrigatório.
De acordo com Marcília, a parte mais expressiva dos pernambucanos que votou pela volta da monarquia estava concentrada nos municípios de Floresta, Paulista, Abreu e Lima e Jaboatão dos Guararapes. Isso porque essas cidades possuíam redutos de defensores de políticos que apoiavam o reinado.
“E aí é muito fácil você ser líder desse colégio eleitoral e fazer a campanha interna. Por que? Porque ainda é muito forte no Brasil essa questão do coronelismo, das oligarquias rurais, esse poder de mando”, explica ela.
Apesar da influência dessas lideranças regionais, o resultado geral no estado seguiu a tendência nacional. Em Pernambuco, a República saiu vitoriosa com 61,85% dos votos, enquanto 7,68% votaram na Monarquia. Já o presidencialismo ficou com 56,90% da preferência e o parlamentarismo obteve apenas 17,32% dos votos.
Plano Real
No ano seguinte, em 1994, o Governo Itamar Franco lançou o Plano Real, o programa de estabilização econômica que eliminou a inflação crônica. Também foi ano de eleições presidenciais, quando Fernando Henrique Cardoso, o criador do Plano, venceu no primeiro turno.
Para o cientista político Alex Ribeiro, o movimento monarquista perdeu força porque estava ligado ao contexto do Brasil em 1993. Após os efeitos positivos do Plano Real, Alex afirma que “a percepção de crise diminuiu e o espaço para propostas alternativas ficou mais restrito”.
Em sua avaliação, os mais de 220 mil votos para a volta da monarquia mostram, segundo ele, que “o eleitor pernambucano está disposto a apoiar opções fora do padrão tradicional quando existe insatisfação política”. “Se a consulta fosse realizada nos dias atuais, a monarquia provavelmente teria maior exposição nas redes sociais, mas encontraria dificuldades para avançar em um cenário marcado pela polarização entre diferentes campos políticos”, comenta.