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Desembargador suspende ordem de fechamento de empreendimento alvo de investigação ligada a ex-prefeito Júnior Matuto

Decisão interlocutória havia determinado fechamento com uso de força policial do complexo de lazer MF Marina Clube, em Marinha Farinha

Por Jorge Cosme

MF Marina Clube, empreendimento em Maria Farinha, Paulista, alvo de investigação.

O desembargador Ricardo Paes Barreto, da 2ª Câmara de Direito Público do Recife, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), suspendeu decisão que determinava o fechamento do complexo de lazer MF Marina Clube, em Paulista, no Grande Recife. Denúncia do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) aponta que o empreendimento estaria ligado a um suposto esquema de fraude em licitação durante a gestão do ex-prefeito Gilberto Gonçalves Feitosa Júnior, o Júnior Matuto (PSB), atual deputado estadual filiado ao Republicanos.

O desembargador, ao avaliar o agravo de instrumento impetrado pela defesa do empreendimento, conclui que a decisão de fechar o espaço seria “bastante gravosa e desproporcional”.

"A situação é de fato sensível, pois de um lado está o interesse público que em tese deve prevalecer, e do outro está uma atividade empresarial responsável por dezenas de empregos e que, como conta dos autos, consignou judicialmente os valores devidos ao fisco municipal local", escreve o magistrado.

Segundo ele, caso o empreendimento seja fechado antes do fim do processo, poderá ocorrer abandono, deterioração, depredação e esvaziamento patrimonial. O desembargador destaca que decisão do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE) reconheceu indícios de irregularidade no contrato de cessão da área, mas salienta que não há uma definição judicial sobre o tema.

"Registro ainda que a área é de acesso geral, e que o encerramento das atividades que se determinou não implicaria de imediato em qualquer benefício para a cidadania da região", assinala.

Decisão

Ao deferir a expedição de ordem de fechamento em fevereiro, a juíza Ângela Mesquita de Borba Maranhão, da Vara da Fazenda Pública da Comarca de Paulista, requisitou que os oficiais de Justiça e representantes da prefeitura fossem acompanhados de força policial durante o cumprimento. A multa diária foi fixada em R$ 10 mil em caso de descumprimento ou desobediência.

A decisão atendia a pedido do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Segundo a promotoria, um terreno público de 10 mil m² teria sido concedido de forma irregular para uma empresa ligada ao arquiteto e empresário Roberto Gouveia Lopes, que seria aliado de Júnior Matuto. O ex-prefeito de Paulista nega irregularidades.

De acordo com o MPPE, a área teria sido doada por meio de uma concorrência pública direcionada, realizada em 2015. O clube também continuou funcionando mesmo após liminar que determinava o cancelamento do contrato entre a empresa e a Prefeitura de Paulista.

 

O deputado estadual Júnior Matuto respondeu em nota que não é parte no processo que determinou o fechamento do clube em Paulista.

"À época dos fatos, enquanto prefeito de Paulista, a gestão municipal atuou dentro da legalidade e em diálogo com os órgãos de controle. Inicialmente, foi encaminhado projeto de lei para destinação da área com objetivo de fomentar o turismo na região. Posteriormente, após questionamento do Ministério Público, a própria Prefeitura revogou a lei, atendendo integralmente à recomendação", diz a nota.

A reportagem não obteve resposta da MF Marina Clube e do arquiteto Roberto Gouveia Lopes.

Operação Beira Rio

A Operação Beira Rio, da Polícia Civil, que investigou o caso, foi concluída com o indiciamento de 11 pessoas, entre elas Júnior Matuto e o arquiteto Roberto Gouveia Lopes, por crimes como fraude à licitação e uso de documento falso. Os 11 indiciados pela polícia foram denunciados pelo MPPE. Ainda não houve sentença.

No inquérito, o delegado conclui, a partir da quebra de sigilo telefônico que o processo licitatório foi uma farsa. "Foi constatado o que já se suspeita, que o processo licitatório nº 141/2015, referente à Concorrência nº 008/2015, foi uma farsa, uma simulação, visando, unicamente, conceder a área pública para o empresário Roberto Gouveia Lopes", registra.

De acordo com a investigação, funcionários do próprio arquiteto e secretários da prefeitura teriam montado o edital em conjunto. Segundo ele, no inquérito, a fraude ocorreu com conhecimento e ingerência direta do prefeito Júnior Matuto.

Também está entre os denunciados Rafael Maia de Siqueira, então secretário de Desenvolvimento Econômico de Paulista, que teria participado da confecção do edital. Rafael é irmão do engenheiro Frederico de Siqueira Filho, ministro das Comunicações do governo Lula (PT).