Operação Vassalos: Especialistas analisam impactos eleitorais para a família Coelho
Cientistas políticas analisam o cenário e os possíveis desdobramentos das investigações sobre transferências milionárias de recursos e convênios firmados com órgãos federais
A Polícia Federal deflagrou uma operação, nesta quinta-feira (25), para investigar Fernando Bezerra Coelho (ex-senador do MDB-PE) e seus filhos, Fernando Coelho Filho (deputado federal do União Brasil-PE) e Miguel Coelho (ex-prefeito de Petrolina pelo União Brasil-PE). A Operação Vassalos apura supostas transferências milionárias de recursos e a celebração de diversos convênios com órgãos federais.
A ação ocorreu após autorização do Ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo relatório ao qual o Diario teve acesso, o ministro afirmou, entre outros pontos, que “os elementos apresentados pela Polícia Federal revelam que os parlamentares investigados, em tese, destinaram quantias expressivas de recursos extraorçamentários, por meio da solicitação de Transferências Eletrônicas Disponíveis (TEDs), à Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba)”.
O relatório aponta que, entre 2017 e 2021, a Prefeitura de Petrolina “figurou como favorecida em pelo menos 27 convênios firmados com o Ministério do Desenvolvimento Regional - antigo Ministério da Integração Nacional - ou com a Codevasf, totalizando R$ 143.206.424,50 em repasses federais”. Desses valores, ainda segundo o documento, 94% foram destinados à execução de serviços de pavimentação e recapeamento de vias públicas do município. O relatório diz também que a construtora Liga Engenharia LTDA, que tem como sócio um parente dos Coelho, “foi a principal beneficiada com os contratos de pavimentação em Petrolina.”
A cientista política Priscila Lapa analisou que investigações desse porte podem provocar fissuras no cenário político e afetar diretamente a vitrine eleitoral dos envolvidos. “O capital político passa também por imagem. Quando a imagem sofre algum tipo de arranhão ou de fissura, isso pode impactar na perda de material político na hora de você negociar a formação. Você vai com menos poder na negociação.”
O avanço das investigações ocorre em ano de Eleições Gerais, para as quais Miguel Coelho já havia declarado ser pré-candidato ao Senado e Fernando Filho deve disputar a reeleição para a Câmara dos Deputados. Segundo Lapa, o impacto pode ser ainda maior nesta fase inicial do processo eleitoral.
“Quando isso acontece já na trajetória do processo eleitoral, cria um elemento de fragilização principal considerando que se vive um período muito importante: o da articulação da formação das alianças. Então, nesse aspecto, isso pode impactar retirando o capital político da família Coelho para fazer os melhores arranjos dentro desse processo de composição dos palanques”, acrescenta.
A influência política da família Coelho em Petrolina também foi analisada pela cientista política e doutoranda Barbara Salviano, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). “Mesmo com a magnitude da operação e seriedade das acusações, considero difícil o cálculo do impacto disso na conta eleitoral da família. Eles constroem o domínio político e econômico sobre o território de Petrolina desde a década de 1930, quando começaram a fortalecer seus pontos de comércio e indústrias na cidade e elegeram seus primeiros candidatos na política municipal, ou seja, há quase um século. Desde a década de 70, há uma hegemonia quase perfeita da família na instituição local, seja nominalmente ou por apoio. Mesmo com grandes críticas vindas de uma parcela da população e denúncias de figuras políticas contrárias da cidade, o domínio deles se mantém estável, e a influência econômica cresce”, detalha.
Ela destaca ainda dois fatores centrais para avaliar o capital político e eleitoral do grupo: “o apoio de outras instâncias e figuras e a reação e opinião pública”. “A câmara de vereadores da cidade é ocupada majoritariamente por políticos da situação, o que pode levar a um apoio local por figuras políticas importantes. Nesse caso, mantendo a imagem positiva da família na cidade. Além disso, os políticos da família têm um histórico de se movimentar de acordo com o caminho feito pelas arenas estadual e nacional, o que também pode ajudar no apoio oferecido por outras figuras”, explica sobre o cenário petrolinense.
Em nota conjunta, Miguel Coelho e Fernando Filho se manifestaram sobre as investigações, falando que “o Estado de Pernambuco foi surpreendido com uma operação cujo alvo principal é o crescimento da cidade de Petrolina”. Ao fim da nota falaram estar tranquilos em relação às investigações, alegando que serão transparentes, tema coincidente com a nota enviada à imprensa pela Prefeitura de Petrolina.