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Venezuela "precisa de muito mais que dinheiro", diz opositora Machado após acordo com EUA

Convênio dá aos Estados Unidos o controle de 65 bilhões de barris de petróleo em 17 campos em diferentes regiões do país

Por AFP

Machado prometeu voltar à Venezuela, mas especialistas apontam que Washington não vê seu retorno com bons olhos

A líder da oposição venezuelana e ganhadora do Nobel da Paz, María Corina Machado, disse, nesta quinta-feira (3), que a Venezuela "precisa de muito mais que dinheiro", após o inédito acordo petroleiro alcançado entre os Estados Unidos e o governo interino de Delcy Rodríguez, cuja legitimidade ela rejeita.

Em um vídeo gravado do exílio e publicado no X, Machado disse que "o setor petroleiro é só uma parte da imensa reconstrução" na Venezuela, que "requer investimentos colossais".

"Em um país com as dimensões e a fragilidade institucional da Venezuela, nenhum setor poderá funcionar de forma isolada", assegurou Machado, que deixou seu país clandestinamente em dezembro para receber o Prêmio Nobel da Paz e atualmente reside no Panamá.

O presidente americano, Donald Trump, anunciou na semana passada a assinatura de um acordo "histórico" com a Venezuela, que outorga ao seu país 20% da gigantescas reservas de petróleo venezuelano.

O convênio dá aos Estados Unidos o controle de 65 bilhões de barris de petróleo em 17 campos em diferentes regiões do país.

A Venezuela considera que obterá lucros de 209 bilhões de dólares (R$ 1 trilhão) em 25 anos.

"Tudo isso dá à Venezuela um valor estratégico extraordinário tanto para a segurança nacional dos Estados Unidos quanto para a estabilidade do hemisfério. Mas o patrimônio do nosso solo não pertence a um REGIME ILEGÍTIMO, pertence ao povo venezuelano", disse Machado.

"Os inimigos dos Estados Unidos na Venezuela estão hoje em Miraflores", afirmou Machado, em alusão ao palácio presidencial.

Não estão "prontos"

Após a assinatura, na quarta-feira, de acordos com multinacionais petroleiras, como Chevron e Eni, em Caracas, Trump e Delcy Rodríguez concordaram em destacar que a Venezuela não está pronta para realizar eleições.

"Simplesmente não me parece que estejam prontos ainda. Você sabe, é algo muito novo. Nós os tiramos de uma ditadura e estamos nos dando muito bem com o governo", disse Trump na quarta-feira.

A mensagem da líder opositora chega oito meses depois da captura do presidente Nicolás Maduro em uma operação militar americana.

Depois de assumir, em janeiro, como presidente interina, Rodríguez impulsionou leis nos setores do petróleo e da mineração para atrair investimentos privados.

O presidente americano elogiou em várias ocasiões a administração de Rodríguez.

Machado defendeu a aliança com os Estados Unidos, mas assegurou que o país deve trabalhar "sob os princípios inegociáveis de transparência absoluta, legalidade e eficiência".

Isto "só é possível com a legitimidade e a estabilidade que um governo sério e democrático oferece", disse.

A oposição denuncia fraude de Maduro nas últimas eleições presidenciais de 2024 e reivindica a vitória nesse pleito de Edmundo González, candidato apadrinhado por Machado.

A líder opositora foi inabilitada politicamente e não pôde se candidatar na ocasião.

"Tristeza e raiva"

"Sei o que vocês estão sentindo: tristeza, raiva e esse mal-estar tão repetido na nossa história de que alguém decida sobre o que é nosso, em nosso nome, em contar conosco", disse Machado em sua mensagem, ao destacar a "profunda preocupação pelas implicações que tem" para o futuro da Venezuela.

A líder opositora promete que vai voltar à Venezuela, mas especialistas apontam que Washington não vê seu retorno com bons olhos.

Em agosto, começou em Caracas um diálogo político entre o governo interino e parte da oposição com vistas a uma transição democrática, mas Machado não foi convidada.

Esta mesa de negociações foi auspiciada por Washington.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou em uma entrevista com a Fox News na quarta-feira que a nova rodada de negociações começará dentro de dez dias.

Maduro, de 63 anos, acusado de quatro crimes, entre eles o de "narcoterrorismo", pediu nesta quinta-feira ante um tribunal em Nova York a retirada das acusações contra ele, apelando à sua imunidade como chefe de Estado.

A Venezuela tem as maiores reservas certificadas de hidrocarbonetos do mundo, com mais de 300 bilhões de barris. Mas sua produção segue muito limitada após décadas de investimento insuficiente, sanções e corrupção.