Após acordo com EUA, Venezuela afirma que mantém soberania sobre o petróleo
O acordo entre EUA e Venezuela gerou dúvidas entre a população venezuelana, apesar das esperanças de recuperação econômica
A presidente interina da Venezuela Delcy Rodríguez acalmou as tensões no sábado (29), ao explicar que o país manterá a "propriedade e soberania" sobre seu petróleo, após um acordo controverso anunciado no dia anterior que permite aos Estados Unidos explorar os campos petrolíferos venezuelanos.
O acordo gerou dúvidas entre a população venezuelana, apesar das esperanças de recuperação econômica.
O presidente americano, Donald Trump, anunciou na sexta-feira (28) que os Estados Unidos terão o controle majoritário de 65 bilhões de barris das reservas de petróleo da Venezuela, no que ele descreveu como "o maior acordo petrolífero da história".
Delcy ainda esclareceu no sábado (29) que a Venezuela mantém a propriedade dos 17 "campos estratégicos" que os Estados Unidos controlarão, com o objetivo de produzir 1,5 milhão de barris por dia. A Venezuela receberá US$ 19 (R$ 98,79) por barril vendido.
"Queremos ser uma potência energética, uma grande produtora de petróleo, uma exportadora significativa de gás e uma grande desenvolvedora petroquímica", disse a presidente em um pronunciamento televisionado para justificar sua escolha pelo "caminho da diplomacia" com os Estados Unidos.
As negociações geram preocupação entre os apoiadores do chavismo, pois ocorrem em meio à intensa pressão de Washington sobre o governo de Rodríguez, que assumiu o poder em janeiro após a captura e deposição de Nicolás Maduro em uma operação dos Estados Unidos.
"Não sabemos quem se beneficiará com isso, se a Venezuela ou eles (os Estados Unidos)", disse à AFP Jesús Salazar, um segurança privado de 68 anos. "Tenho minhas dúvidas, mas temos que esperar para ver o que acontece", acrescentou. O Partido Socialista Unido da Venezuela, no poder, reafirmou seu apoio à decisão.
Petróleo e economia venezuelana
Sob pressão de Washington, Rodríguez implementou reformas nos últimos meses para abrir os setores de petróleo e mineração, indústrias antes zelosamente protegidas pelo Estado, ao capital privado, especialmente ao investimento estrangeiro.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos flexibilizaram as sanções petrolíferas impostas durante o governo Maduro.
A produção de petróleo aumentou 29,8% de janeiro a julho, quando a Venezuela atingiu 1,2 milhão de barris por dia, mas permanece longe dos 3 milhões de barris por dia extraídos no final do século passado.
O acordo visa recuperar esses níveis máximos de produção, mas analistas concordam que isso só acontecerá a longo prazo.
"O aumento da produção não será visto por pelo menos três ou quatro anos", estima o engenheiro Oswaldo Felizzola.
Esse especialista em petróleo vê com bons olhos a atuação dos Estados Unidos como "garantidor" de investimentos na Venezuela, que não consegue atrair capital significativo há mais de uma década.
"Se não fosse assim, esses campos não seriam explorados nos próximos 10 ou 15 anos, porque a PDVSA (Petróleos da Venezuela) não tem os recursos econômicos para isso", afirma Felizzola, professor do Instituto de Estudos Superiores em Administração.
Uma operação dessa magnitude poderia acelerar a tão esperada recuperação econômica da Venezuela, que ainda se recupera da brutal contração de 80% sofrida entre 2014 e 2021.
Essa é a esperança de muitos venezuelanos que mal sobrevivem com um salário mínimo mensal equivalente a US$ 0,16 (R$ 0,83) e bônus estatais que chegam a US$ 240 (R$ 1.247) por mês, bem longe do custo de US$ 730 (R$ 3.795) da cesta básica, segundo estimativas privadas.
"Se eles querem o petróleo daqui, da Venezuela, têm que pagar pelo preço atual, porque a Venezuela não vai dar o petróleo de graça", diz Carlos Baco. Esse funcionário público, de 74 anos, espera que, com a receita do petróleo, a economia melhore. Seu bolso não sentiu o efeito do aumento da produção nos últimos meses.
"Até agora, não vimos nada. O consumo e os alimentos estão mais caros... o dólar sobe, e os preços das mercadorias também, tudo sobe, transporte, tudo. Isso é impossível aqui", afirma.