Casa onde Adolf Hitler nasceu vira delegacia na Áustria
Imóvel na cidade de Braunau, perto da fronteira com a Alemanha, havia se tornado local de peregrinação de neonazistas
A Áustria inaugurou formalmente, nesta quarta-feira (22), uma delegacia na casa onde Adolf Hitler nasceu. O objetivo do país foi afugentar os radicais de extrema direita que transformaram o imóvel em um local de peregrinação neonazista.
Numa rua comercial de Braunau-an-Inn, perto da fronteira com a Alemanha, o prédio do século 17 onde o ditador nasceu em 20 de abril de 1889, ficou irreconhecível depois de vários anos de obras que custaram 20 milhões de euros (mais de 115 milhões de reais).
O revestimento amarelo deu lugar a uma fachada branca sóbria. Na entrada ergue-se o emblema da polícia, mas na calçada foi conservada uma lápide comemorativa com a inscrição: "Pela paz, a liberdade e a democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos nos fazem lembrar".
Esta manifestação “mostra que a cidade de Braunau enfrentou sua história, que assume suas responsabilidades”, declarou o prefeito Johannes Waidbacher, na presença do ministro do Interior, Gerhard Karner.
O prefeito espera que traga "um pouco de serenidade" aos seus moradores e que mostre "que se pode olhar para o futuro". A cerimônia, na presença de uma centena de pessoas, entre elas cerca de 30 policiais uniformizados, foi realizada ao som de uma orquestra, apurou a AFP.
As autoridades esperam que a manifestação ponha fim a uma longa polêmica em um país criticado por ter demorado a assumir sua responsabilidade no Holocausto, no qual 65 mil judeus austríacos morreram e 130 mil partiram para o exílio.
Os especialistas calculam que cerca de seis milhões de pessoas, uma imensa maioria judaica, morreram desde que os nazistas chegaram ao poder na Alemanha até o final da Segunda Guerra Mundial.
A inauguração da delegacia ocorre em um momento em que a extrema direita ganha terreno nas pesquisas de opinião. Segundo uma pesquisa publicada no domingo pelo jornal Kronen Zeitung, o partido FPÖ, fundado por ex-nazistas e que faz parte da oposição, tem 38% das intenções de voto, frente a quase 29% das últimas eleições legislativas de setembro de 2024.
Expropriação
A casa onde Adolf Hitler nasceu pertencia a uma família desde 1912. Em 1972, o estado alugou e instalou ali um centro para pessoas portadoras de deficiência, um dos grupos que sobreviveram à barbárie do Terceiro Reich.
Os neonazistas costumam se reunir neste endereço. Mesmo assim, sua última proprietária, Gerlinde Pommer, se opôs à transformação do prédio e impugnou sua expropriação.
As autoridades tiveram que aprovar uma lei especial para que prevalecesse o interesse geral em 2016. Três anos depois, a Suprema Corte Austríaca validou a compra por 810 mil euros (aproximadamente R$ 2,78 milhões, na cotação da época) dos 800 metros quadrados de superfície.
Várias opções foram avaliadas para o futuro. Uma comissão de especialistas decidiu não transformá-lo em um símbolo local para evitar que atraísse neonazistas.
Também foi descartada sua demolição porque, na opinião dos historiadores, a Áustria deve enfrentar seu passado. Por fim, se tornará uma delegacia de polícia para “deixar claro”, segundo o governo, que não serão permitidas comemorações do nacional-socialismo.
Mas isto não é pôs fim à polêmica. “Esta transformação não vai dissuadir nenhum neonazista tentado pela peregrinação”, disse à AFP Robert Eiter, do Comitê Austríaco de Mauthausen (MKÖ), uma associação de sobreviventes do campo de concentração austríaco.
Ele é "cético" sobre a possibilidade de que as forças de segurança consigam neutralizar o lugar. “Sem querer generalizar, infelizmente se observa com frequência que uma parte da polícia se inclina muito, muito para a direita”, afirma Eiter.