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Futebol segue sendo um produto desvalorizado

Por Beto Lago

Samir Xaud, presidente da CBF

O produto futebol
Quanto vale o Campeonato Brasileiro? A pergunta ganhou força nas comparações com as principais ligas do mundo. Mas a discussão não pode ficar restrita a direitos de transmissão, patrocínio e audiência. O valor de uma liga é consequência do produto inteiro. E o futebol brasileiro precisa fazer uma autocrítica pesada. Os 20 clubes da Série A movimentaram R$ 14,9 bilhões em receitas em 2025, crescimento de 33%. O endividamento líquido, porém, chegou a R$ 14,3 bilhões. Existe dinheiro, existe mercado e existe torcida. O que ainda falta é entregar uma experiência compatível com o tamanho desse negócio. A Premier League, LaLiga e Bundesliga entenderam há muito tempo que estádio, gramado, transmissão, segurança, mobilidade, alimentação e atendimento fazem parte do produto. No Brasil, ainda existem arenas com problemas básicos e gramados incompatíveis com a dimensão do campeonato. E o torcedor compara. Ele acompanha futebol europeu e percebe a diferença na qualidade das imagens, dos gráficos, dos replays, das estatísticas e de toda a experiência. A CBF precisa liderar uma mudança de padrão, mas os clubes também têm responsabilidade. O produto começa dentro deles. Não adianta buscar um contrato maior de televisão ou um patrocinador mais valioso se a experiência oferecida ao torcedor continua abaixo do potencial do campeonato. O Brasil tem uma matéria-prima extraordinária: grandes torcidas, rivalidades históricas, clubes centenários e enorme capacidade de mobilização. O que precisa fazer é transformar essa paixão em valor. A pergunta, portanto, não deveria ser apenas quanto vale o Brasileirão. É preciso perguntar: quanto estamos entregando para justificar esse valor?

Mais valor pela paixão
Quase 10 milhões de torcedores foram aos estádios da Série A em 2025, com média superior a 26 mil por partida. Os números mostram que não falta público. Falta transformar presença em experiência. O torcedor precisa encontrar conforto, segurança, mobilidade, bons serviços e uma operação profissional. Paixão existe de sobra. O futebol precisa fazer mais valor por ela.

Torcedor disposto a pagar
Os programas de sócios dos clubes da Série A movimentaram R$ 877 milhões em 2025, recorde histórico. É uma demonstração clara de que o torcedor está disposto a pagar quando percebe valor na relação com o clube. O desafio está justamente aí: aumentar o valor percebido. Não existe direito adquirido a grandes contratos. O mercado paga pelo produto que considera valioso.

Responsabilidade de todos os lados
A CBF precisa estabelecer padrões e cobrar. Os clubes precisam investir e profissionalizar. Estádio não pode ser apenas o lugar onde a partida acontece. É parte do espetáculo. A transmissão também precisa evoluir. O Brasil não precisa copiar Premier League, LaLiga ou Bundesliga. Precisa aprender com quem já entendeu que qualidade também é receita. Temos torcida, audiência e dinheiro. O que ainda falta é transformar tudo isso em um produto à altura do futebol brasileiro.