Mercado de SAFs no Brasil: as dívidas do Botafogo e o alerta para Santa Cruz, Sport e Náutico
O Diario de Pernambuco consultou especialistas no tema para entender a atual situação do mercado de SAFs e os riscos na transformação de clubes em empresas
As Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs) surgiram no Brasil como uma promessa de salvação para muitos clubes. Cinco anos após a aprovação da lei, entretanto, a realidade tem sido diferente dessa expectativa inicial.
Exemplos são dos mais variados. Vão desde o Botafogo, que foi campeão da Libertadores e do Campeonato Brasileiro de 2024 sob o comando de John Textor, mas agora tem inúmeras dívidas, ao Vasco, que vendeu sua SAF para a 777 Partners, empresa americana, que depois entrou em processo de falência global.
No Nordeste, o Bahia se organiza para ser um dos melhores exemplos de gestão no Brasil. O clube, que chegou a amargar a Série C nos anos 2000 (disputando a terceira divisão em 2006 e 2007), oscilou entre as principais divisões até se firmar e passar cinco anos consecutivos na elite do futebol brasileiro na década passada.
Em 2021, o Tricolor baiano foi rebaixado novamente para a Série B, mas subiu no ano seguinte e, desde então, tem se reestruturado, chegando a alcançar a fase de grupos da Libertadores em 2025.
Quando o Bahia foi promovido à elite do Brasileirão pela última vez, iniciou-se o processo de venda da SAF, finalizado em maio de 2023 com a cessão de 90% dos direitos da gestão de futebol ao Grupo City (conglomerado dono do Manchester City, da Inglaterra).
Para o advogado Guilherme Matos, sócio do escritório Matos Advogados, clubes como Bahia e Coritiba integram a chamada "segunda leva" de SAFs e se beneficiaram por não agir no desespero.
"São clubes que viram o que aconteceu com a primeira leva, extraíram o bom e o ruim, e constituíram SAFs que hoje se provaram no mínimo sólidas", explica.
O argumento feito por Guilherme é corroborado pelo advogado Maurício Corrêa da Veiga, membro fundador da Academia Nacional de Direito Desportivo, observando que os clubes geralmente chegam para negociações enfraquecidos.
"O primeiro ponto é a cautela. Quando o clube está se apresentando para os investidores numa situação de desespero, ele acaba sendo encantado pelo canto da sereia", destaca. "É preciso ter a cautela de buscar uma consultoria independente que faça um raio-X, um panorama de 360 graus no investidor, pois, na maioria das vezes, já existem sinais pré-existentes de problemas", completa.
A EMPOLGAÇÃO DA TORCIDA
No futebol, quando se trata do clube do coração, é difícil manter a razão e tomar decisões sem a empolgação natural com um futuro de grandes promessas.
E, mesmo em situações nas quais as diligências e investigações sobre os investidores das SAFs são feitas de forma correta, fatores externos podem atrasar ou até destruir os planos, obrigando um recálculo de rota.
No caso do Santa Cruz e, principalmente, do Atlético-MG, a notícia de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estava sendo investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de comandar um esquema que teria fraudado R$ 12 bilhões com carteiras falsas de crédito, trouxe consequências diretas para os clubes.
No cenário do clube mineiro, Vorcaro investiu cerca de R$ 300 milhões no Galo e se tornou dono de 20% da SAF do clube. Com o avanço das investigações, ele acabou afastado pelo Conselho Administrativo no fim de novembro de 2025. Ele foi preso de forma preventiva no início de março.
Já para o Tricolor pernambucano, o processo para transformar o clube em uma Sociedade Anônima do Futebol acontece efetivamente desde 2025. O Santa já tinha investidores alinhados com a Cobra Coral Participações — empresa criada pelos empresários Alexandre Pires de Andrade Kubitschek, Marcus Amaro Oliveira Bitar Silva e Iran Almeida Barbosa.
Desde o início de 2026, entretanto, a constituição da SAF Coral parou de andar. Recentemente, o presidente do Santa Cruz, Bruno Rodrigues, revelou a saída do grupo de investidores da Cobra Coral Participações das negociações, que visavam a compra de 90% das ações do futebol tricolor.
De acordo com o portal ge, o grupo de acionistas também possui contratos com empresas ligadas a Fernando Alves Vieira — citado nas investigações da Polícia Federal sobre a fraude do Banco Master.
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O cenário ilustra o alerta feito por Maurício Corrêa da Veiga sobre a origem dos aportes financeiros.
"Quando chega o investidor, você não pode se encantar simplesmente. Tem que ver a origem do dinheiro e adotar normas de compliance", enfatiza o especialista.
A imprevisibilidade de esquemas ocultos, como o do Banco Master, reforça a complexidade do tema SAF. Para Guilherme Matos, é difícil culpar as gestões por não preverem fraudes que enganam o próprio mercado financeiro.
"No caso específico [do Banco Master], é óbvio que não dá também para apontar o dedo e dizer assim: 'Ah, como é que não se sabia que havia esse tipo de envolvimento?'. É difícil. A gente viu que o país, como um todo, foi pego de surpresa", pondera o advogado.
Agora, o Santa Cruz vai atrás de novos empresários para continuar o processo de transformar o futebol em SAF. O presidente do clube esteve em São Paulo entre os dias 22 e 24 de abril para negociar com possíveis investidores.
Apesar do recuo recente com a Cobra Coral Participações, o potencial de mercado do Tricolor segue alto na visão dos especialistas.
"O Santa Cruz é hoje a galinha dos ovos de ouro de qualquer investidor no Brasil. Porque é um clube gigante, e com a torcida que tem", avalia o advogado Guilherme Matos.
Nesta semana, no entanto, Bruno Rodrigues garantiu que o clube não aceitará mais a cessão definitiva do Estádio do Arruda em futuras negociações.
A decisão da diretoria coral vai diretamente ao encontro do alerta feito pelo advogado Maurício Corrêa sobre a preservação do patrimônio físico na constituição das SAFs.
"O fato de o Santa Cruz, por exemplo, ceder o estádio, seria um negócio desastroso para o clube. Quem vai explorar vai ser a SAF, mas o clube precisa receber um valor de aluguel", alertou. "O clube tem que evitar ser depauperado totalmente; ele deve manter o patrimônio para ter uma renda", reforça o especialista.
Ainda sobre a inclusão do patrimônio nas tratativas, Guilherme Matos avalia que tudo depende das contrapartidas oferecidas pelo investidor, sem que isso signifique a perda do controle.
"Não vejo prejuízo de que a área do Arruda esteja envolvida. Isso será valorado a nível de oportunidade, de custo-benefício e de negócio como um todo. Não há certo nem errado, desde que seja bem comunicado", analisa.
'APRENDENDO COM OS ERROS DOS OUTROS'
Cinco anos desde a aprovação da lei das SAFs e já existem pontos com os quais os clubes brasileiros podem aprender.
"Ainda é muito pouco para um tema tão complexo, que por natureza já seria complexo, e adicionado ao componente da paixão que o futebol traz, se torna ainda mais", observa Guilherme Matos.
Por outro lado, o imediatismo cobra seu preço. Será que vale arriscar tudo para conquistar a América e o Brasil, por exemplo?
O Botafogo fez um investimento financeiro profundo para ter um ano histórico em 2024. Trouxe nomes como Thiago Almada, Igor Jesus, Luiz Henrique e o treinador Arthur Jorge, além de outros jogadores.
A conta, no entanto, chegou. Em pedido de recuperação judicial, o Botafogo apresentou uma lista com todos os credores da SAF do clube. Ao todo, o clube deve mais de R$ 1 bilhão a times brasileiros e estrangeiros, atletas, técnicos, empresários, bancos e fornecedores, segundo a ESPN.
O que chama a atenção é que, além dos valores altos, como as dívidas de R$ 200 milhões com o meia argentino Thiago Almada (incluindo valores devidos à Major League Soccer e ao próprio jogador), existem outras obrigações como com farmácias, locadoras de automóveis, agências de viagens, empresa de segurança,fogos de artifício, entre outros.
"O que a gente viu no Botafogo é um exemplo claro de qualquer gestão associativa dos últimos 50 anos no Brasil. É o cara que investe o que tem e o que não tem para obter resultado esportivo imediato, mas a conta, obviamente, chega algum dia, e no caso do Botafogo, como era alta, chegou rápido", afirma Guilherme.
Seguindo a ideia de aprender com os erros dos outros, Maurício pontua que os clubes brasileiros também podem aprender com exemplos de times de fora do país.
"Em Portugal, em 2016, chegou um grupo de chineses para comprar o Desportivo das Aves. O investimento deu certo de início. O clube ganhou a Taça de Portugal, mas, de noite para o dia, os investidores simplesmente foram embora. Na prática, o que aconteceu? Dívidas. Chegou ao ponto de o troféu mais importante da história do clube ser penhorado. Os torcedores precisaram se organizar e fazer uma vaquinha para o troféu não ir a leilão", conta Maurício.
Enquanto o Santa Cruz tenta reestruturar seu processo, Náutico e Sport seguem estudando a possibilidade de virarem SAF, mas sem a urgência de fechar negócio a qualquer custo.
"Hoje a gente se encontra num estado de banho-maria. A maioria dos clubes está observando mais, esperando talvez o vizinho fazer um movimento mais brusco para mitigar eventuais riscos", explica Guilherme.
No fim das contas, a transformação em clube-empresa trilha um caminho para deixar de ser vista como uma fórmula mágica.
Para os clubes pernambucanos, fica a lição de que, no futebol moderno, a pressa pode até render taças, mas é a responsabilidade que garante o futuro da instituição.
Afinal, a história recente do futebol brasileiro mostra que a conta sempre chega.