Avanço do retrofit abre nova frente para o mercado moveleiro no Recife
Mobiliário sob medida é solução para plantas que variam de 15 a 42 metros quadrados em novos projetos residenciais e hoteleiros surgidos após a lei do Recentro
As transformações imobiliárias no Centro do Recife, impulsionadas pela reocupação de prédios históricos e pela conversão de uso de antigas edificações, têm impulsionado o mercado de móveis planejados como um item praticamente obrigatório para viabilizar a moradia em ambientes compactos. Longe de ser um mero capricho estético, o mobiliário sob medida garante funcionalidade a plantas que variam de 15 a 42 metros quadrados em novos projetos residenciais e hoteleiros.
A Lei do Recentro (instituída pela Lei Municipal nº 18.869/2021 e atualizada por leis posteriores, como a Lei nº 19.450/2025) é um dos principais instrumentos de incentivo ao retrofit e à ocupação do patrimônio histórico, que já afetou mais de 59 imóveis, somando mais de 150 mil metros quadrados de área construída. As ações contaram com um aporte superior a R$ 200 milhões em investimentos públicos e mais de R$ 550 milhões em investimentos privados.
Em complemento, o IRCentro, instrumento urbanístico que transforma a recuperação de imóveis históricos em potencial construtivo negociável, estabeleceu a atratividade econômica dos empreendimentos de retrofit. As iniciativas viabilizaram projetos como o Moinho Recife e Motto by Hilton Recife.
Foi nesse contexto que a Essanto, indústria do Grupo Officina, produziu móveis planejados para o hotel Motto by Hilton Recife Antigo, inaugurado em fevereiro deste ano, que conta 132 apartamentos que possuem cerca de 15m² cada.
O sócio-diretor do Grupo Officina e vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), Adeilton Pereira, avalia que o mobiliário sob medida é uma forma inteligente de aproveitar e otimizar espaços reduzidos, oferecendo não apenas requinte estético ao ambiente, mas principalmente funcionalidade e racionalidade, elementos que foram empregados no planejamento de móveis para o hotel do grupo Hilton.
A necessidade de planejar os móveis enquanto o prédio estava em obras foi um dos um dos momentos mais desafiadores do projeto. "Tínhamos um prazo curto e muitas pessoas envolvidas, desde as equipes de engenharia, pedreiros e pintores até eletricistas e gesseiros. O principal desafio foi conciliar todas essas atividades e cumprir os prazos de que o cliente precisava", afirma.
Para Adailton, a possibilidade de criar móveis que atendam as especificidades do retrofit e de ambientes compactos fortalece o setor moveleiro em Pernambuco. "O retrofit, não apenas de prédios históricos, mas também de hotéis modernos, é, sem dúvida, uma alternativa de receita recorrente para o nosso negócio. Como esses ambientes têm uso intenso e são espaços públicos, o desgaste é naturalmente mais acentuado do que em uma residência, por exemplo. Por isso, esses imóveis precisam passar por renovações de tempos em tempos", pontua.
Paredes curvas
A Oficina Jucá de Marcenaria atua desde 2021 no setor moveleiro e precisou se adaptar às transformações do mercado. O responsável administrativo e sócio do empreendimento, Caio Belfort, percebeu que a nova tendência tem mudado a forma trabalho.
"Muito da nossa demanda inicial foram prédios que eu chamo de 'caixinhas modernas', onde se tenta resumir o conforto familiar em retângulos otimizados pra caber 'exatamente' o mínimo necessário. Hoje, tendo passado por alguns apartamentos mais antigos e alguns retrofits com a distribuição de cômodos mais irregular. Usamos cada vez mais os adventos do corte computadorizado na criação de estruturas menos padronizadas e formas menos retas - muitas vezes tendo que interagir de maneira mais agressiva com a alvenaria local, reforçando paredes e criando divisórias pra transformar o ambiente", conta.
Ele também nota um aumento na procura por móveis planejados desde 2025. "Do Derby, passando pelo Centro, até a Avenida Boa Viagem, o investidor que quer lucrar em plataformas como o AirBnB, por exemplo, tem crescido significativamente e a movelaria planejada é a maneira mais eficiente de ofertar conforto e praticidade aos inquilinos", afirma.
O engenheiro da empresa, João Carvalho, explica que, diferentemente de grandes fábricas de móveis, que possuem variações limitadas no catálogo, a marcenaria trabalha opções personalizadas para cada cliente. "Temos um catálogo praticamente infinito de produtos, nossa principal vantagem é receber um projeto ou design de um cliente ou arquiteto e entender o que será necessário para transformá-lo em realidade, sem ter que desenvolver uma linha de produção inteira para resolver um detalhe de projeto", ressalta.
Do ponto de vista técnico, o arquiteto e sócio da Oficina Jucá de Marcenaria, Mateus Maia, que projetou móveis para a CasaCor 2025, afirma que o mais desafiador no retrofit é ter que lidar com as formas irregulares das construções antigas. "A evolução tecnológica e a padronização da construção civil fez com que, nas construções recentes, seja muito mais comum encontrar paredes, aberturas e pedras no esquadro. Para nós do ramo dos planejados, não tem dor de cabeça maior do que precisar encaixar um móvel numa alvenaria irregular. Dito isto, a tecnologia tem sido uma grande aliada tanto na medição destes ambientes quanto na fabricação de peças que se ajustem aos ângulos obtusos, dentes e concavidades", relata.
Mesmo diante do trabalho árduo que é mobiliar retrofit, ele espera que a tendência não seja passageira. "Adaptar o existente é uma boa prática de muitas formas: na conservação da memória da cidade; na reinserção do Centro na vida urbana, problema crônico das metrópoles brasileiras; e também na sustentabilidade material da indústria de construção civil", frisa.