Silvio Meira prevê fim dos aplicativos na era da IA
Para o cientista, avanço da tecnologia vai redesenhar profissões, empresas e a forma de acessar serviços
“Aplicativo vai morrer.” A afirmação de Silvio Meira, presidente do Conselho do Porto Digital, membro do Conselho do CESAR e cientista-chefe da TDS Company, aponta para uma transformação na forma como pessoas, empresas e serviços se relacionam com a tecnologia. Na avaliação do cientista, a inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta para executar tarefas e começa a ocupar o lugar da própria interface.
Em vez de abrir um aplicativo para cada necessidade, a tendência é que o usuário converse diretamente com sistemas de inteligência artificial, capazes de compreender solicitações, buscar informações e, cada vez mais, executar tarefas. “Não precisa do aplicativo. Isso aí é uma conversação”, resume.
Um exemplo está dentro do próprio CESAR. Na CESAR School, foi criado um sistema de IA capaz de responder às dúvidas dos estudantes a partir de documentos, informações acadêmicas e contatos da instituição. A primeira versão, segundo Meira, foi desenvolvida em apenas quatro dias úteis. No primeiro dia, a ferramenta eliminou 672 e-mails que precisariam ser respondidos por pessoas.
A mudança também está relacionada ao comportamento dos usuários. Rosário Pompeia, sócia fundadora da Le Fil Company, empresa da qual Silvio Meira é investidor, conta que a própria filha participou de uma experiência que ilustra a resistência aos aplicativos. Uma agência de turismo pediu que os estudantes baixassem um aplicativo para utilizar durante uma viagem. Ninguém queria ocupar espaço no celular com uma ferramenta que seria usada apenas naquela ocasião. “O app é coisa de gente velha”, brincou Rosário.
Durante anos, a transformação digital foi marcada pela criação de um aplicativo para cada serviço. Na nova etapa, a lógica pode se inverter: em vez de o usuário procurar o serviço, o serviço passa a estar disponível dentro da conversa. A própria busca na internet já muda. Segundo Meira, as pessoas não querem necessariamente receber uma lista de links, mas saber diretamente o que está acontecendo.
Essa transformação também afeta modelos tradicionais de tráfego e publicidade. Se a inteligência artificial responde à pergunta sem obrigar o usuário a visitar diferentes páginas, muda a lógica que sustentou parte importante da economia digital.
Para dimensionar essa transformação, Meira recorre a Alan Turing e ao “jogo da imitação”, proposto pelo cientista britânico em 1950. Turing perguntava se máquinas poderiam pensar. Para Meira, 75 anos depois, essa já não é a questão central. As máquinas conseguem imitar determinados processos do pensamento humano com qualidade que, em algumas tarefas, supera a capacidade de pessoas treinadas.
Na programação, Meira afirma que sistemas atuais já conseguem produzir cerca de 95% do código necessário para determinadas aplicações, com desempenho superior ao de um profissional competente em tarefas específicas. Isso não significa atribuir consciência às máquinas. Elas não sentem ansiedade, angústia ou medo, nem têm percepção de si mesmas. O que existe é uma capacidade algorítmica crescente de reproduzir atividades cognitivas, especialmente as repetitivas.
Durante décadas, o trabalho de escritório esteve baseado em tarefas cognitivas repetitivas: coletar informações, preencher planilhas, produzir gráficos, preparar apresentações, organizar dados e repetir procedimentos. Esse modelo começa a ser colocado em xeque.
Segundo o cientista, cerca de 40% do trabalho formal no Brasil está sujeito a algum nível de deslocamento provocado por IA, o que significa a eliminação de determinadas atividades, modificação de funções e criação de novas formas de trabalho.
O profissional tende, na sua avaliação, a assumir um papel mais estratégico: definir problemas, estabelecer contextos, coordenar agentes humanos e artificiais, avaliar resultados e decidir o que deve chegar ao mercado. Na programação, por exemplo, o trabalho deixa de ser essencialmente escrever código e passa a envolver a definição do problema e a avaliação da solução produzida pelos sistemas.
A transformação também atinge os negócios. Rosário Pompeia conta que, na LeFil, a estratégia foi antecipar o risco de a inteligência artificial tornar obsoleta parte do serviço oferecido pela empresa. A pergunta passou a ser como transformar em plataforma aquilo que pode ser automatizado e preservar como consultoria aquilo que depende de estratégia.
Na produção de conteúdo, uma publicação que poderia envolver locação, fotógrafo, modelos e estrutura de produção passou a ser feita com custo bem menor com o uso de uma plataforma desenvolvida pela empresa. A redução permitiu aumentar a produção e diversificar campanhas. A lógica, portanto, não é apenas fazer o mesmo trabalho mais rápido, mas redesenhar o negócio.
Para Meira, as empresas precisam perguntar o que acontecerá com seus negócios se um concorrente utilizar a tecnologia de maneira completamente diferente. “Se alguém pegar essa tecnologia e usar, estrategicamente, vai matar o meu negócio?”, questiona.
O cientista-chefe da TDS Company organiza esse processo em nove níveis, dos quais quatro primeiros já podem ser atingidos: descrição, para saber o que está acontecendo; diagnóstico, para entender por que acontece; previsão, para identificar o que provavelmente acontecerá; e prescrição, para indicar o que fazer.
Meira define a IA como uma tecnologia de propósito geral, semelhante à eletricidade e ao motor de combustão. Essas tecnologias não modificam apenas uma atividade: reorganizam ecossistemas inteiros. O automóvel, por exemplo, substituiu o cavalo como principal meio de mobilidade e criou uma nova cadeia econômica. Com a IA, a lógica pode ser semelhante. Mercados serão transformados, profissões desaparecerão, outras surgirão e muitas serão profundamente modificadas.
Para o cientista-chefe da TDS Company, a transformação já começou. O desafio é entender para onde deve migrar o trabalho humano. “Você não precisa mais fazer o trabalho. Você vai descrever o trabalho a ser feito”, enfatiza. Na nova configuração, caberá aos humanos formular problemas, estabelecer objetivos, coordenar agentes, avaliar resultados e fazer escolhas. Porque, apesar do avanço da inteligência artificial, permanece uma tarefa essencialmente humana: decidir o que vale a pena fazer.
É nesse cenário que o modelo baseado em aplicativos começa a perder espaço. Em vez de dezenas de ferramentas instaladas no celular, a promessa é uma interface única e conversacional, capaz de compreender o pedido e acionar os sistemas necessários “por trás das cortinas”. O aplicativo, na previsão de Meira, não desaparece apenas porque surgiu uma tecnologia melhor. Ele perde sua função porque a própria maneira de interagir com a tecnologia mudou.