° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Porto Digital mira negócios mais complexos para impulsionar nova fase de crescimento

Presidente da instituição, Pierre Lucena afirma que próximo ciclo de expansão será baseado em empreendedorismo, IA, interiorização e aproximação com universidades

Por Paula Losada e Roberto Gazzi

Pierre Lucena

O Porto Digital entra em uma nova etapa com a missão de transformar a escala alcançada nas últimas décadas em negócios mais complexos, inovação de maior valor agregado e novas oportunidades para empresas pernambucanas. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, o presidente da instituição, Pierre Lucena, afirma que o ecossistema já reúne 540 empresas, movimenta cerca de R$ 7,3 bilhões e gera mais de 24 mil empregos. O próximo ciclo será baseado em empreendedorismo, inteligência coletiva, inteligência artificial, aproximação com universidades e interiorização.

Quando assumiu a presidência, em 2018, Pierre conta que o Porto Digital tinha 9 mil funcionários e faturamento de cerca de R$ 1,8 bilhão. A estratégia foi estruturada em três eixos: território, capital humano e negócios. O resultado, segundo ele, transformou não apenas o ambiente empresarial, mas também o Bairro do Recife. “Meu trabalho aqui é um só: ficar animando, mobilizando as pessoas em torno de um propósito comum, que é fazer o Recife e Pernambuco serem um lugar da tecnologia e do conhecimento.”

Território e formação

No eixo territorial, o Porto Digital passou a atuar na recuperação física do Bairro do Recife, estimulando a ocupação e a restauração de imóveis. Segundo Pierre, a instituição revitalizou mais de 30 mil metros quadrados. Com os investimentos das empresas que chegaram ao bairro, o volume chega a cerca de 230 mil metros quadrados.

Outro eixo fundamental é a formação de mão de obra. O presidente destaca programas como o Embarque Digital, em parceria com a Prefeitura do Recife, e iniciativas de requalificação profissional desenvolvidas com empresas e o Governo de Pernambuco. Um dos programas oferece cursos intensivos de aproximadamente 60 dias para áreas demandadas pelo mercado. Cerca de 4 mil pessoas participaram do processo seletivo inicial e os formados foram absorvidos.

A proposta agora é manter a formação de maneira permanente, com cerca de 60 pessoas concluindo a capacitação a cada 60 dias. “Na prática, todo dia uma pessoa ganha um emprego aqui vindo desse programa”, afirma.

O Porto Digital também pretende ampliar a formação empreendedora nas universidades, levando até mil estudantes por ano para uma espécie de residência em empreendedorismo.

Negócios

A mudança mais importante, entretanto, está no eixo dos negócios. Pierre avalia que o Porto Digital já conseguiu atrair grandes companhias e que existe um limite para esse modelo. “Eu não tenho mais grandes empresas para atrair. A próxima fase de crescimento está em fazer negócios mais complexos aqui dentro e trabalhar essa base de empresas que eu tenho aqui.”

Para organizar a próxima etapa, as empresas são divididas em diferentes estágios: empreendedores, startups, empresas de tração a negócios maduros. A intenção é oferecer apoio específico para cada fase. “Quando a gente olhou, viu onde estavam as nossas falhas”, explica.

Atualmente, cerca de 170 empresas participam de iniciativas de incubação, aceleração, internacionalização e pré-aceleração. Para as empresas em crescimento, o foco passa a ser acesso a mercados, mentoria e oportunidades de negócios.

Rec’n’Play e inteligência coletiva

Pierre também pretende transformar o Rec’n’Play em uma plataforma permanente de mobilização. O festival será realizado de 11 a 14 de novembro e já alcançou aproximadamente 90 mil participantes nas últimas edições. A próxima mudança será priorizar oficinas, experiências práticas e formação, reduzindo o peso de mesas e palestras.

A instituição está criando 13 capítulos do Rec’n’Play, relacionados aos grupos temáticos e verticais do Porto Digital, com temas como inteligência artificial, cibersegurança, indústria, saúde, turismo e varejo.

O recém-inaugurado NERD — Núcleo de Empreendedorismo e Residência Digital integra essa estratégia. O espaço recebeu investimento de R$ 18,5 milhões, dos quais R$ 13,8 milhões vieram da Finep, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O restante foi aportado pelo Governo de Pernambuco, que também cedeu o imóvel para a implantação do equipamento. (Porto Digital?)

O Porto Digital possui 13 grupos temáticos que reúnem profissionais das empresas, especialistas e pesquisadores. A proposta é organizar essa inteligência coletiva e aproximar novamente a academia do ecossistema.

“O NERD vai ter uma importância muito grande porque vai ter a alavancagem do setor privado e a gente está fazendo uma atração da academia de volta com muita força”, afirma.

Universidades e IA

Pierre considera a aproximação com as universidades fundamental. Para ele, o aumento da complexidade dos problemas enfrentados pelas empresas exige maior participação da pesquisa acadêmica. O Porto Digital pretende mobilizar entre 200 e 300 professores e pesquisadores para participar mais ativamente do ecossistema.

“Se você não traz a academia, a gente tem um problema, porque precisa de áreas muito mais sofisticadas do que qualquer ecossistema tradicional está acostumado a lidar.”

A inteligência artificial também ocupa lugar central na nova fase. Para Pierre, a tecnologia deverá modificar profissões, empresas e a maneira como as universidades formam seus alunos.

“O professor não pode ser um professor de conteúdo, porque senão o ChatGPT substitui. Quando eu passo a trabalhar habilidades e competências, ele fica diferente”, afirma.

Ele defende uma mudança no modelo de ensino, com maior ênfase em competências como comunicação, liderança, trabalho em equipe, inteligência emocional, capacidade de lidar com números, elaboração de relatórios e domínio de outros idiomas.

Na sua avaliação, a universidade precisará deixar de ser um espaço centrado exclusivamente na transmissão de conteúdo. “O conteúdo já está disponível para todo mundo”, diz. “Essa revolução na educação vai ser muito grande. Mudar a universidade por dentro vai ser o maior desafio que o mundo vai ter”, avalia.

Para Pierre, o Brasil pode se tornar um importante celeiro de aplicações de IA. “O Brasil é um grande celeiro de problemas a serem resolvidos. E agora temos uma capacidade de resolução que a sociedade nunca teve.”

Interiorização e internacionalização

A expansão também ganha força fora do Recife. Caruaru e Petrolina estão no centro da estratégia de interiorização. Em Caruaru, a intenção é estimular a inovação para a indústria têxtil. Em Petrolina, o Porto Digital prepara uma estrutura física e pretende assinar a ordem de serviço para as obras em setembro.

“Daqui a 15 ou 20 anos, eu quero que todo mundo olhe para Petrolina e Caruaru e diga: eles não são apenas exportadores de frutas ou de produtos têxteis. São exportadores de inovação para a agricultura e para a indústria têxtil”, afirma.

Em Portugal, o Porto Digital mantém uma frente de internacionalização em Aveiro, utilizada como porta de entrada para o mercado europeu. Mais de 30 empresas já participaram dessas iniciativas.

Reforma tributária

Para Pierre, as mudanças provocadas pela reforma tributária reforçam a necessidade de Pernambuco buscar novas vantagens competitivas. “Não vamos ter mais a guerra fiscal. Então, precisamos apostar no setor de serviços avançados”, defende.

Ele cita a economia do conhecimento como oportunidade para gerar empregos qualificados e distribuir renda. “Precisamos apostar na capacidade do povo, nas pessoas, na educação e na tecnologia para criar um futuro diferente.”

Futuro

Para Pierre, a principal força do Porto Digital está no modelo de governança que permite manter projetos de longo prazo independentemente das mudanças políticas.

O modelo permite trabalhar simultaneamente com os governos federal e estadual, Prefeitura do Recife e municípios do interior, além de empresas e universidades.

“A vantagem é que existe uma gestão permanente que faz com que isso independa de governo, de empresas ou da gestão da universidade.”

Pierre afirma estar otimista com a capacidade de Pernambuco de construir uma nova economia baseada em conhecimento. Para ele, o caminho passa por uma articulação permanente entre governo, empresas, universidades e sociedade.

“Todos os programas de economia do conhecimento que deram certo no Brasil têm esses três agentes trabalhando juntos: a base universitária, a força do empreendedorismo e o governo. Hoje existe um componente novo, que é a mobilização.”

E é justamente essa mobilização que, segundo Pierre, deverá sustentar o próximo capítulo do Porto Digital: transformar o ecossistema já consolidado em uma plataforma capaz de criar empresas mais sofisticadas, formar profissionais para uma economia em transformação e levar a inovação cada vez mais para além do Bairro do Recife.

Ao olhar para o futuro do Porto Digital, Pierre Lucena resgata uma ideia dos fundadores que, segundo ele, continua atual. Ao lembrar as entrevistas publicadas em jornais a respeito das discussões sobre a criação do ecossistema, ele recorda uma definição de Cláudio Marinho para o que viria a ser o Porto Digital que nunca saiu de sua cabeça: “Movimento popular de cultura digital”.

Para Pierre, é justamente essa mobilização ampla, envolvendo empresas, universidades, governos e sociedade, que poderá sustentar o próximo ciclo de desenvolvimento de Pernambuco.