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El Niño em PE exige repensar gado no semiárido e pode atrasar plantio, diz especialista

El Niño deve aumentar pressão sobre o Rio São Francisco, afetando produção de alimentos em Pernambuco

Por Marília Parente

Eduardo Assad, professor da FGV

SÃO PAULO – A chegada do El Niño no segundo semestre deste ano deve prolongar a estiagem no Semiárido pernambucano, aumentar a pressão sobre o Rio São Francisco e exigir mudanças na forma como o Estado produz alimentos e administra seus recursos hídricos. O alerta é do cientista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Eduardo Assad, um dos principais especialistas brasileiros em mudanças climáticas e agricultura, que defende que Pernambuco acelere medidas de adaptação para reduzir os impactos sobre a economia e a população.

Em entrevista ao Diario de Pernambuco, durante o evento Impactos Sociais e Econômicos do Clima no Brasil, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), em São Paulo, Assad afirmou que o principal efeito esperado para o Nordeste é o prolongamento da seca. “Pode ter estiagem, ao longo de todo o São Francisco, porque ele corta o semiárido. Isso pode comprometer a produção da uva em novembro”, explica.

Evento climático cíclico e irregular, o El Niño é causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical, que altera os padrões de vento e chuva em escalas globais. Em consequência das mudanças climáticas e do aquecimento global, sua versão em 2026 é aguardada com preocupação pelos especialistas, com exacerbação das secas no semiárido e aumento das chuvas no litoral.

De acordo com Assad, em 2026, o El Niño deve atingir seu pico no mês de outubro. Para o pesquisador, o atraso da produção agrícola na região pode mitigar os efeitos do fenômeno. “Se o produtor tiver irrigação, pode mudar o calendário da produção, segurar um pouco para novembro ou dezembro, até que o rio possa se recompor. Se não tiver, vai acabar perdendo”, lamenta Assad.

Ele defende, contudo, que é necessário investir na recuperação das matas de galeria (ou ciliares) no entorno do curso do rio, desde sua nascente em Minas Gerais até a foz, reduzindo processos de degradação e ajudando a preservar a disponibilidade hídrica. “Não adianta fazer isso só em Petrolina. Se isso não acontecer, vamos perder o rio”, alerta.

A ampliação de políticas de economia hídrica também é essencial para o estado. “É preciso investir em cisternas e tecnologias voltadas para o armazenamento de água para os pequenos produtores”, completa.

Pecuária em xeque

De acordo com Assad, a redução da disponibilidade de água também preocupa a bovinocultura, já que a dessedentação (saciar a sede) animal é responsável por um dos maiores consumos de água do país. “Um boi bebe 10 litros de água por dia. Será que esse animal é realmente adaptado ao semiárido?”, questiona.

Em 2013, diante de uma das piores secas dos últimos 40 anos, o prolongamento da estiagem em Pernambuco, fez com que produtores do estado perdessem mais de 960 mil cabeças de gado, somando animais mortos, precocemente abatidos, retirados do estado e vendidos. “Por outro lado, caprinos e ovinos são naturalmente mais adaptados às condições da caatinga e podem representar uma alternativa mais resiliente diante da escassez hídrica”, destaca.

Para Assad, essa adaptação pode ser seguida pelo setor agrícola do estado, com espécies adaptadas à caatinga, como umbu, seriguela, cajá e cajá-manga, que continuam sendo exploradas principalmente por meio do extrativismo, quando poderiam dar origem a cadeias produtivas mais estruturadas. “São produções que precisam ser expandidas porque geram renda para o pequeno produtor e são naturalmente resistentes ao clima local”, conclui.