Francisco Cunha defende novo modelo de desenvolvimento para Pernambuco
Pernambuco precisa substituir o modelo de desenvolvimento que orientou suas últimas décadas por uma estratégia capaz de responder aos desafios que já pressionam o estado hoje
Pernambuco precisa substituir o modelo de desenvolvimento que orientou suas últimas décadas por uma estratégia capaz de responder aos desafios que já pressionam o estado hoje. Essa é a tese central do estudo que resultou no livro “Pernambuco em Perspectiva – Contribuições para o redesenho do modelo de desenvolvimento estadual”, elaborado ao longo de quase três anos de debates promovidos pela TGI Consultoria, em parceria com a revista Algomais, Rede Gestão, a Ceplan, a Facta Consultoria e com apoio do Banco do Nordeste. A publicação será entregue aos candidatos ao Governo de Pernambuco durante a campanha eleitoral para estimular um debate sobre o futuro do estado, para além do horizonte dos próximos quatro anos.
Segundo o consultor e sócio da TGI, Francisco Cunha, o estudo parte da constatação de que o modelo de desenvolvimento que orientou Pernambuco nas últimas décadas esgotou sua capacidade de responder aos desafios atuais. “Não porque tenha fracassado, mas porque foi praticamente todo executado. O modelo concebido na década de 1950, inspirado pelas ideias do economista e padre francês Louis-Joseph Lebret, cumpriu seu papel histórico e agora precisa ser redesenhado diante das novas realidades”, afirma.
Esse modelo teve origem em 1954, quando o padre Lebret foi convidado pela Comissão de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Codepe), criada pelo governador Agamenon Magalhães, para elaborar um estudo sobre as potencialidades econômicas do estado. O trabalho, publicado em 1955 sob o título “Estudo sobre Desenvolvimento e Implantação de Indústrias, Interessando a Pernambuco e ao Nordeste”, tornou-se uma referência histórica do planejamento regional.
Lebret identificou a vocação portuária de Pernambuco e defendeu a implantação de um grande complexo industrial integrado ao sul do Recife, prevendo refinaria, estaleiro, indústrias petroquímicas, farmacoquímicas, metalmecânicas e uma nova estrutura portuária. Décadas depois, essas ideias se materializaram no Complexo Industrial Portuário de Suape. “O padre desenhou uma matriz de desenvolvimento que foi sendo preenchida ao longo de mais de 50 anos. Hoje ela está praticamente completa e precisa ser substituída por outra, adequada aos desafios do século 21", observa Francisco Cunha.
Entre esses novos desafios, o consultor destaca as mudanças climáticas, especialmente em um estado que possui cerca de 90% do território no semiárido; a transformação digital e o avanço da inteligência artificial, que tendem a eliminar milhares de postos de trabalho; a crise fiscal estrutural do Estado brasileiro; o aumento da polarização política; o envelhecimento da população; e o crescimento do crime organizado.
“O planejamento não pode mais ignorar essas questões. O debate público continua concentrado apenas em obras ou disputas políticas imediatas, quando o fundamental é discutir como Pernambuco vai gerar riqueza, emprego e qualidade de vida nas próximas décadas”, afirma.
A principal proposta da publicação é a criação de um Sistema Pernambucano de Planejamento Estratégico, com um Conselho Estadual e conselhos regionais no Sertão, Agreste, Zona da Mata e Região Metropolitana, reunindo representantes da sociedade, do governo e da academia. “A sociedade aponta as demandas, o governo tem a capacidade de execução e a academia produz conhecimento. É esse triângulo que precisa funcionar de forma permanente”, defende.
Para Francisco Cunha, a publicação busca recolocar o planejamento estratégico no centro das decisões públicas. “O Brasil e Pernambuco perderam a cultura do planejamento de longo prazo. Hoje se governa apenas com o farol baixo, olhando o imediato. É preciso voltar a usar também o farol alto para enxergar o futuro”, enfatiza.
A obra reúne contribuições de 19 especialistas em áreas como educação, segurança pública, ciência, tecnologia e inovação, meio ambiente, comércio exterior, gestão pública, desenvolvimento regional e infraestrutura. Ao longo dos cerca de três anos de discussões, mais de 2,5 mil pessoas participaram dos encontros promovidos pelo projeto, entre empresários, gestores públicos, pesquisadores e representantes da sociedade civil.
Entre os temas destacados estão a necessidade de fortalecer a economia baseada no conhecimento, aproveitando ativos como o Porto Digital e o Polo Médico do Recife; ampliar pesquisas voltadas ao semiárido; estimular cadeias produtivas sustentáveis; e repensar o futuro de polos tradicionais, como o gesseiro, o de confecções e o da fruticultura irrigada.
Francisco Cunha explica que a iniciativa é resultado de uma tradição de quase quatro décadas de estudos sobre o desenvolvimento estadual. Segundo ele, esse trabalho começou, na verdade, há cerca de 35 anos, quando a consultoria buscava compreender as características das empresas bem-sucedidas de Pernambuco. “Os empresários diziam que não adiantava uma empresa ser bem-sucedida em um estado malsucedido. Foi aí que percebemos que o destino das empresas estava diretamente ligado ao destino de Pernambuco”, afirma.
Ao longo desse período, a TGI realizou 16 edições da pesquisa, publicou livros sobre o passado, o presente e o futuro do estado e produziu estudos que serviram de base para o Plano Pernambuco 2035, elaborado durante o governo de Eduardo Campos. O plano, no entanto, acabou sendo interrompido após a morte do ex-governador, seguida pela recessão econômica nacional e pela pandemia da Covid-19, fatores que, segundo Francisco Cunha, tornaram necessária uma nova reflexão sobre o planejamento estadual.
Que, ao receberem a publicação, os candidatos se lembrem do padre Lebret, cuja visão de longo prazo transformou a história do desenvolvimento de Pernambuco.