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Empreender: um ato de persistência e coragem

Formalização dos negócios e foco na gestão financeira são alguns fatores que permitem a sobrevivência das empresas e fortalecem recomeços

Por Thatiany Lucena

Mais de 59% das empresas em PE fecharam em 2025, mas taxa de sobrevivência ficou em 45% entre 2021 e 2025

O processo de empreender e fazer os negócios crescerem nem sempre é feito de escolhas certas. Em muitas histórias de sucesso, a persistência é o que sustenta a coragem de recomeçar uma empresa mesmo após uma ou mais falências.

Indo na contramão dos fatores que atrapalham os negócios, como a falta de planejamento financeiro e crises econômicas, o pernambucano Arnaldo Xavier, de 59 anos, natural de Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste do estado, conviveu desde muito jovem com o desejo de empreender. Ele começou a trabalhar na área da moda com corte e costura ainda aos 13 anos e hoje é o CEO do Grupo Rota do Mar. Antes de alcançar o sucesso e chegar a faturar cerca de R$ 60 milhões, ele viu os seus planos afundarem duas vezes, até decidir formalizar o negócio.

Trabalhando desde adolescente na informalidade, foi aos 21 anos que Arnaldo vivenciou a primeira queda do negócio, chegando a ficar sem estoque para vender e sem dinheiro. Na época, o Brasil enfrentava o período de hiperinflação. “Durante a crise econômica, eu vendia muito com cheque pré-datado, principalmente para a Bahia, Paraíba e Maranhão. Esses cheques foram todos devolvidos de uma vez e, como eram sem fundo, não teve como segurar a empresa e ela quebrou”, lembra.

Já a segunda grande falência do negócio aconteceu quando ele planejava casar e construir a casa própria, aos 25 anos. Ele utilizou todo o recurso disponível no caixa e caiu na inadimplência. “Tirei o dinheiro do negócio que eu entendia muito bem e botei em outro tipo de negócio que eu não entendia”, relata.

Superação

Depois da segunda quebra, Arnaldo voltou a trabalhar e aos 30 anos resolveu formalizar a empresa. ”Com esse ‘cai e levanta’, eu aprendi um pouco. Já somava 17 anos de trabalho intenso, com uma empresa pequena, na informalidade. Mas as quebras fizeram com que eu ganhasse uma casca para começar a empreender de fato”. Ao perceber que já tinha acumulado experiência, ele decidiu realizar o sonho de criar uma marca, então fundou a Rota do Mar, em 1996.

A partir de 2021, a empresa começou a se posicionar como “Grupo Rota do Mar”, já chegou a faturar cerca de R$ 60 milhões e espera ultrapassar esse número em 2026. Localizada no polo de confecções de Pernambuco, a marca conta hoje com um ponto de venda online e dez pontos de vendas físicos concentrados em Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru. A empresa produz cerca de 140 mil peças mensalmente e emprega cerca de 600 pessoas de forma direta e indireta.

Quando questionado sobre os aspectos que fizeram a empresa crescer, Arnaldo lembra que a profissionalização e a formalização foram essenciais para consolidar, de fato, o negócio. Segundo ele, é importante que as empresas, independentes do tamanho, busquem a formalização o quanto antes. “Eu esperava ser grande para poder formalizar e acho que isso foi um equívoco meu”, diz.

O empresário lembra ainda que outro aprendizado foi manter o foco naquilo que ele gostava e sabia fazer, além de buscar sempre estudar e se manter atualizado sobre as novidades do mercado.

Desde o início da Rota do Mar, Arnaldo conta com o apoio da família. Ele fundou a empresa com a esposa, Marta Ramos. Além disso, atualmente, duas filhas do casal também atuam no grupo: a diretora criativa Beatriz Xavier e a diretora comercial Isabel Ramos.

Sucesso em família

Quem também contou com o apoio da família desde o início foi Maria dos Prazeres, de 67 anos, que vive no bairro dos Torrões, zona oeste do Recife. Há 35 anos, em busca do sustento da casa, ela começou a vender empadas e contava com o apoio dos dois filhos para vender os produtos, que ofereciam nas portas dos vizinhos. “Se vendesse, a gente fazia de novo e se não vendesse, a gente comia”, lembra. Foi então que o negócio começou a fluir.

Dois anos depois, veio a primeira queda. Segundo Maria, essa primeira crise aconteceu porque os gastos ultrapassaram o que ela ganhava com as vendas. Porém, ela não desistiu e depois de um tempo voltou a vender aos poucos. Dessa vez, levava os salgados para vender em frente ao Hospital da Restauração, no Recife, quando começou a ter um retorno financeiro maior.

Foi quando ela passou pela segunda grande crise, cerca de cinco anos depois da primeira. “Comecei a gastar, fazer regalias, plano de saúde e outras coisas que não era para fazer, então, fiquei sem dinheiro para trabalhar de novo”, lembra. Segundo ela, a dificuldade também era acompanhada do desafio de cuidar sozinha dos filhos, contando apenas com a ajuda da mãe que morava próximo.

O impulso para a retomada surgiu quando uma cliente procurou Maria e ofereceu o pagamento adiantado para a encomenda. “Então eu comecei tudo de novo e disse: Dessa vez a gente não vai errar. A gente vai ficar a pão e água, mas a gente vai conseguir se levantar; e foi o que aconteceu’’, recorda.

Quando as encomendas aumentaram, a mesma cliente, que era proprietária de um prédio na Avenida Caxangá, ofereceu uma loja para Maria organizar o negócio em 2006. Sabendo que ela não tinha condições de pagar, ofereceu os primeiros três de aluguel em troca de alguns reparos no espaço. Na época, ainda com medo porque não tinha estudo, ela chamou a filha para trabalhar junto com ela e, hoje, a unidade está prestes a completar 20 anos. Mas essa não era a primeira unidade, pois ela já tinha uma loja nos Torrões.

Com o sucesso, Maria formalizou a empresa Delícia da Prazeres. Em poucos anos, ela conseguiu expandir o negócio e, hoje, conta com as unidades de Piedade, Aldeia, Boa Viagem e Rosarinho. Ela trabalha com a neta na loja da Caxangá e as outras unidades ficaram sob a responsabilidade dos filhos. Além deles, o sobrinho também trabalha na empresa como gerente das lojas da Caxangá e dos Torrões. Ao todo, as seis unidades empregam cerca de 500 funcionários.

Sobre os fatores que contribuíram para o sucesso da empresa, Maria destaca a união da família. “Eu e meus três filhos sempre fomos muito unidos. Cada um tinha a sua função. Antes de sair, primeiro ajudava em casa. Isso foi muito importante para mim, porque sozinha eu não conseguia”, diz.

Segundo ela, a perseverança também foi fundamental para o crescimento. “Sempre achei que eu ia ter tudo isso um dia. Eu não sabia que era tanto, mas sabia que eu ia ter essas coisas”, destaca. Fazem parte do cardápio da Delícia da Prazeres variedades como doces, tortas, salgados, almoço, lanches e sobremesas.

Ainda de acordo com Maria, a ajuda do Sebrae foi importante na sua busca por capacitação por meio de cursos e palestras. Em paralelo, ela também buscava conhecimento por meio de pessoas próximas e de empreendedores já experientes para entender mais sobre o mundo dos negócios.

Motivos para falências são semelhantes

Segundo o DataSebrae, que considera dados de maio da Receita Federal, em 2025, a taxa de encerramento das empresas (MEI, ME e EPP) em Pernambuco foi de 59,1%. Ainda assim, em cinco anos, de 2021 a 2026, a taxa de sobrevivência das empresas foi de 45%.

De acordo com o superintendente do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Pernambuco (Sebrae/PE), Murilo Guerra, ao longo dos anos de acompanhamento de pequenas empresas no estado, o Sebrae/PE identificou semelhanças entre os erros que levam à queda das empresas. O primeiro é a falta de planejamento. “Muitos abrem as portas movidos pela empolgação, sem entender o mercado em que estão entrando, o cliente, a concorrência e os riscos”, aponta.

Segundo Guerra, outra segunda falha comum nas empresas é misturar as finanças pessoais com as da empresa. Nesse caso, o empreendedor usa o caixa da empresa como se fosse da própria carteira, o que acaba afetando qualquer negócio. Outros desafios apontados por ele, são a precificação errada do produto ou serviço e a resistência à inovação e à gestão profissional.

O especialista em direito empresarial e bancário, João Bandeira, também destaca a importância de separar as finanças entre pessoa física e pessoa jurídica. O especialista também orienta a evitar retirar recursos do caixa que são incompatíveis com a realidade da empresa.

Para Bandeira, no cenário atual de juros altos e créditos mais seletivos, é importante também conhecer os números do próprio negócio para evitar os impactos com os aspectos econômicos. “Empresas que mantêm gestão financeira eficiente, planejamento estratégico, assessoria jurídica preventiva e acompanhamento constante possuem melhores condições de enfrentar períodos de instabilidade e preservar a continuidade de suas atividades”, orienta.

Principais cuidados para evitar crises

O superintendente do Sebrae/PE também elenca os principais pontos para evitar a falência de uma empresa:

  • Conhecer os números do seu negócio e ler o mercado;
  • Manter um relacionamento saudável com clientes e fornecedores;
  • Diversificar fontes de receita e ter sempre uma reserva de emergência;
  • Buscar apoio especializado nos primeiros sinais de dificuldade;
  • Investir em capacitações.

Para quem ainda está começando, ele alerta que o futuro empreendedor deve validar a ideia antes de investir, buscando fazer testes para ter resultados reais.

Já para quem está há anos no mercado, ele aponta o excesso de confiança como um dos principais riscos. “A experiência é um ativo enorme, mas é preciso estar sempre disponível para se adaptar a mudanças no mercado, ao comportamento do consumidor e à tecnologia”, aponta.

Independente do tempo de experiência do empreendedor no mercado, ele alerta também a importância do cuidado com a gestão financeira. “Separar contas, ter planejamento anual, acompanhar indicadores mensalmente, conhecer o ponto de equilíbrio do negócio são práticas que garantem a sobrevivência de empresas”, finaliza.