O palanque passou, o Brasil real ficou
Por Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues*
Guardadas as bandeiras e encerrada a contagem dos votos, o país acorda diante do espelho da realidade. A dinâmica das urnas cumpre o seu papel vital na democracia, mas não resolve, por si só, o preço do supermercado, a fila do hospital ou a qualidade da escola pública. Passada a febre eleitoral, a verdadeira urgência bate à nossa porta: desarmar os espíritos e colocar as mãos à obra. O Brasil não se constrói com torcidas organizadas, mas com o suor de quem trabalha.
Alimentar rivalidades de palanque após o encerramento do pleito é um luxo que a economia e o tecido social não suportam. A inflação não escolhe partido, o desemprego não consulta ideologia e os gargalos de infraestrutura que travam o desenvolvimento — seja nas avenidas do Recife ou nas rodovias que cortam o interior de Pernambuco — exigem soluções técnicas, não discursos inflamados.
A maturidade de uma nação se mede pela capacidade de converter a energia da disputa eleitoral em sinergia para a governabilidade e para a produção.
Sob o crivo da filosofia política, vale lembrar que a própria existência do Estado moderno se fundamenta na ideia do Contrato Social, teorizada por pensadores como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. Eles nos ensinaram que a transição da barbárie para a civilização ocorre quando os indivíduos concordam em canalizar suas disputas por meio de regras comuns.
A eleição é o ápice desse contrato; contudo, prolongar a guerra política para além das urnas flerta com o que Hobbes chamava de "guerra de todos contra todos", onde a coletividade se autodestrói.
Para Rousseau, a verdadeira soberania reside na "vontade geral" voltada ao bem comum, algo que só se manifesta quando o barulho das facções partidárias dá lugar ao silêncio do trabalho resoluto.
Essa transição encontra respaldo no pensamento da filósofa Hannah Arendt. Para ela, a política só realiza sua potência máxima quando os indivíduos abandonam o isolamento de suas bolhas ideológicas e ingressam no espaço público para agir em concerto, edificando um "mundo comum".
Arendt nos alertava que o perigo da degradação política mora no momento em que as facções tentam instrumentalizar esse espaço para destruir o pluralismo. Lutar pelo Brasil, sob essa ótica, não é buscar a uniformidade de pensamento, mas compreender que o solo que pisamos e as instituições que nos amparam pertencem a todos nós. O verdadeiro patriotismo é o cuidado com a durabilidade desse mundo compartilhado.
Lutar pelo país, a partir de agora, assume uma roupagem muito mais complexa do que apertar botões na urna eletrônica. Significa exercer uma cidadania ativa e vigilante. Cobrar eficiência dos eleitos, fiscalizar o orçamento público e exigir que as promessas de campanha se transformem em políticas públicas tangíveis.
Oposição e situação possuem papéis legítimos e necessários, desde que o norte de ambos seja o avanço institucional, e não a paralisia deliberada em nome de um projeto de poder contínuo.
O amanhã já começou. Nas indústrias, no comércio, no campo e nos escritórios, o despertador tocou no mesmo horário para todos. O voto é uma procuração de curto prazo; o trabalho diário é a construção permanente de quem somos e de onde queremos chegar. É hora de recolher os palanques, blindar o país do barulho estéril e focar no que realmente importa. Afinal, como bem nos lembrava Carlos Drummond de Andrade em seus versos imortais no célebre poema "Mãos dadas", que faz parte do livro Sentimento do mundo, publicado em 1940 sobre o nosso compromisso com o agora:
"O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente."
*Sérgio Ricardo Araújo Rodrigues é advogado e professor universitário.