Canetas emagrecedoras e câncer de mama: o que a ciência está descobrindo
Por Patricia Cravo*
Termos como semaglutida e tirzepatida, alguns dos ativos usados nas chamadas canetas emagrecedoras, deixaram os laboratórios e consultórios e passaram a ser comuns em conversas e dia a dia e em postagens nas redes sociais. Mas na mesma proporção em que eles avançam em popularidade, também se multiplicam os estudos sobre possíveis efeitos secundários na utilização dessas substâncias nos pacientes em tratamento para obesidade. Recentemente, novas pesquisas vêm chamando atenção no meio científico por apontarem para a potencial capacidade desses medicamentos em reduzir o risco de desenvolvimento e a progressão de cânceres, entre eles os de mama.
Hoje, sabe-se que a obesidade é um dos principais fatores modificáveis envolvidos no desenvolvimento de tumores mamários. Isso ocorre porque o excesso de gordura no corpo estimula a produção excessiva de hormônios como o estrogênio, além de manter o organismo em estado de inflamação crônica e elevar os níveis de insulina no sangue. Esse metabolismo alterado pode favorecer a multiplicação desordenada de células mamárias. Por isso, o controle do peso, especialmente após a menopausa, quando as variações hormonais favorecem as oscilações na balança, é uma das questões centrais nos cuidados com a saúde feminina.
Um estudo de grande porte divulgado em junho durante a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), em Chicago, nos Estados Unidos e levado à frente por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia analisou mais de 110 mil mulheres acima do peso. Os resultados demonstraram uma redução entre 30% e 35% nos riscos de desenvolver câncer de mama entre usuárias de canetas emagrecedoras em comparação com mulheres que não utilizavam esse tipo de medicamento.
Além disso, pesquisas complementares apresentadas no evento observaram maior taxa de sobrevivência em pacientes com câncer de mama que faziam tratamento contínuo de controle de peso. A redução da gordura corporal e a consequente diminuição da inflamação são considerados pontos fundamentais nesse efeito, mas também é avaliada uma possível ação das substâncias usadas nas canetas emagrecedoras nos mecanismos biológicos que afetam o crescimento tumoral.
Apesar dos resultados animadores, a prevenção e o controle da evolução do câncer de mama não são indicações diretas para a prescrição dos chamados agonistas de GLP-1, classe de medicamentos na qual estão substâncias como a semaglutida, a liraglutida e a tirzepatida. O uso dessas substâncias exige, de acordo com as diretrizes atuais, diagnóstico de obesidade e/ou diabetes, indicação correta e avaliação das particularidades de cada paciente. Por isso, o acompanhamento médico constante é indispensável para definir a dosagem adequada, monitorar possíveis reações adversas e garantir a segurança do tratamento do início ao fim.
*Patricia Cravo é médica radiologista do Centro Diagnóstico Lucilo Ávila e membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia