Planejar com água para aprimorar a cidade
Por Raquel Cruz*
A história das cidades também pode ser contada pela relação que construímos com as águas. Rios, várzeas e áreas costeiras abasteceram populações, sustentaram atividades econômicas e conectaram territórios. No Recife, essa relação está na formação da cidade, entre o porto, os rios, os manguezais e a riqueza ecológica de suas áreas de baixada.
À medida que as cidades cresceram, transformamos as paisagens. Aterros permitiram ocupar áreas alagáveis; rios foram retificados e canalizados; solos, impermeabilizados; ecossistemas foram substituídos por áreas urbanizadas; e sistemas de drenagem passaram a conduzir rapidamente as águas. Essas intervenções viabilizaram a expansão urbana como a conhecemos hoje, mas também modificaram os caminhos, os tempos e os espaços da água na paisagem.
Talvez o desafio contemporâneo não seja encontrar novas soluções para a drenagem, mas rever como manejamos a paisagem: compreender os percursos da água, respeitar seus tempos e criar espaço para que ela permaneça, infiltre, circule pelo solo e pela vegetação e retorne à atmosfera pela evapotranspiração. Significa reconhecer o ciclo da água como parte do funcionamento da cidade.
Toda urbanização é uma forma de manejo da paisagem. A diferença está em fazê-lo conscientemente, compreendendo seus processos e favorecendo os ciclos da água e os processos ecossistêmicos que a sustentam.
É essa perspectiva que orienta o trabalho no Cajueiro, no Recife, financiado pelo edital Periferias Verdes Resilientes, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e executado pela Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES).
O projeto adota a microbacia como unidade de planejamento. A água conecta ruas, lotes e espaços públicos seguindo o relevo. Reconhecer seus percursos, combinando leitura técnica e o conhecimento de quem convive com as chuvas, permite compreender onde e como intervir.
Uma microbacia do Cajueiro, escolhida como piloto, receberá uma rede de canteiros pluviais integrada à drenagem existente. Mais do que dispositivos de drenagem, são pequenos fragmentos de ecossistema, onde água, solo e vegetação interagem para recuperar processos modificados pela urbanização.
Ao longo dos percursos da água, os canteiros buscam reter, infiltrar, filtrar e desacelerar os escoamentos, retardando sua chegada à baixada e reduzindo a concentração dos fluxos nos picos das chuvas mais frequentes. Também ampliam a vegetação nativa e criam condições para biodiversidade, evapotranspiração e melhoria do microclima. Em rede, ajudam a reintroduzir processos ecossistêmicos na paisagem urbana.
A participação dos moradores atravessa o projeto, do diagnóstico à implantação em mutirão. Ao articular conhecimento local e técnico, o processo busca ampliar a capacidade da comunidade de intervir em sua paisagem e fortalecer seus moradores como agentes de transformação.
O Broadview Green Grid, em Seattle, é referência de drenagem natural organizada na escala da bacia. No Cajueiro, essa lógica é reinterpretada a partir da paisagem local. A experiência será monitorada para aprender e aperfeiçoar intervenções futuras.
Planejar a água é também planejar a paisagem. Não se trata de escolher entre engenharia e natureza, mas de reconhecer que infraestrutura, relevo, solo, vegetação, animais, água e pessoas integram um mesmo sistema. Manejá-lo conscientemente pode transformar a maneira como nossas cidades convivem com as dinâmicas da natureza.
*Raquel Cruz é arquiteta, urbanista e paisagista, consultora do projeto SBN em Cajueiro da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)