Daqui pra frente
Por Rosário Pompéia*
“Ganhamos pq tomamos a campanha da campanha :)”
Foi uma das primeiras mensagens que li hoje de uma pessoa muito querida. A mensagem chegou cedo, ainda com cara de madrugada sem dormir, e fiquei um tempo olhando para a tela. Não posso revelar quem escreveu. Mas sei reconhecer quando uma frase curta carrega uma campanha inteira dentro dela. Esta carrega o primeiro aprendizado da vitória de Lula.
A noite da vitória foi de abraço, de buzina, de choro na rua. Agora, quando o barulho começa a baixar, a realidade volta a pedir passagem. E ela tem pressa. Precisamos olhar, com urgência, daqui pra frente.
A frase resume o espaço que Janones ocupou. Enquanto a comunicação da Campanha ainda pensava em peças, publicidades, posts e anúncios, em grade de publicação, em mídia paga e em rodadas de aprovação, ele organizava pessoas para agir. Minha leitura é que a estrutura continuava presa a uma lógica analógica: criação centralizada, mensagem aprovada de cima para baixo e população tratada como audiência. A campanha estava na internet, mas ainda carregava os hábitos da televisão.
O bolsonarismo já tinha mostrado que domina a viralização. Janones mostrou que entendia de algo mais difícil e mais raro: engajamento de verdade. Não basta alcançar as pessoas. É preciso dar a elas um papel, uma tarefa possível de cumprir em dois minutos e uma razão para voltar no dia seguinte. Quem trabalha com mobilização conhece isso como escada de engajamento: cada degrau pede um pouco mais e devolve um pouco mais de pertencimento. A diferença estava aí, na capacidade de transformar atenção em participação.
O WhatsApp virou central de coordenação. De lá saíam as convocações: compartilhar este vídeo agora, subir esta hashtag em tal horário, pesquisar este assunto. Tarefas simples, com hora marcada e resultado visível. E cada pessoa que cumpria a tarefa levava a campanha para o grupo da família, da igreja, do trabalho, lugares onde nenhum anúncio entra com a mesma confiança.
Esse ciclo criava as condições para efeitos de rede: cada novo participante acrescentava conexões e ampliava a capacidade de circulação de todos os outros. Janones também sabia ler os sistemas de recomendação. Convocava curtidas, comentários e compartilhamentos concentrados nas primeiras horas de cada publicação, justamente os sinais que costumam pesar na distribuição. Ele sabia como os algoritmos funcionavam, mesmo sendo controlados por outros, e brincava com eles. Isso é método, não sorte.
A operação atravessava plataformas. O chamado nascia no WhatsApp, ganhava corpo nas outras redes e podia terminar na rua, na praça, na porta da feira. As imagens da rua voltavam às telas e alimentavam novas conversas. Em A Próxima Democracia, livro que escrevi com Silvio Meira, discutimos essa costura entre o físico, o digital e o social. É nesse vai e vem que a política digital acontece.
Janones compreendeu a urgência. Agiu como quem sabe que, numa eleição, não há tempo para esperar toda a estrutura aprender, concordar e aprovar. Com elegância, abriu sua própria frente sem disputar o comando de tudo. Não esperou que a comunicação resolvesse suas discussões sobre publicidade para colocar gente em movimento.
Quem trabalha com plataformas e inteligência artificial conhece esse cansaço. Eu conheço. É a energia que deveria alimentar a experiência sendo gasta, reunião após reunião, para convencer quem ainda mede o novo com régua antiga. É a sensação de sair da sala tendo explicado o futuro a quem preferia o passado. Na eleição, o calendário não espera o entendimento. A prática de Janones mostrou, em poucas semanas, o que talvez levasse meses para caber num slide.
Agora, cabe a Lula transformar esse aprendizado em governo. E aqui mora o risco. As pessoas convocadas para votar não podem ser dispensadas no dia seguinte. Precisam encontrar espaço para falar, propor e cobrar. Uma mensagem sobre um serviço público deve poder voltar como relato de uma dificuldade, chegar a quem decide e produzir resposta. Mobilização sem retorno vira frustração. E frustração, nas redes, se organiza rápido, muitas vezes contra quem a provocou.
A comunicação de governo não pode voltar ao modelo analógico de campanha, de transmissão sem escuta. Precisa aproximar a conversa da decisão e dar consequência ao que ouve. Plataforma, afinal, não é canal. É lugar onde as pessoas fazem coisas juntas.
A comemoração passa. As pessoas ficam, com suas vidas por resolver: o posto que não atende, o ônibus que não passa, a conta que não fecha. É com elas que começa o daqui pra frente.
Obrigada, Janones, pela coragem de começar sozinho uma mobilização digital e fazer tanta gente sentir que tinha força, tinha voz e podia fazer a diferença.
*Rosário Pompéia é Sócia da LeFil Company