No baile com Anne Carson e Can Xue
Por Marcus Prado*
Num grande baile, a quem o leitor estenderia a mão para dançar? À escritora chinesa Can Xue ou à canadense Anne Carson, galardoada com o Nobel de Literatura de 2026? Com Can Xue, seria aceitar um convite para o absurdo e para o sonho. Sua prosa não obedece às leis da gravidade ou da lógica; é um rodopio hipnótico no qual o chão muda de textura a cada passo. Seu estilo é de vanguarda, frequentemente comparado ao de Kafka e Borges. Esse convite ao absurdo e ao sonho lembra o escritor e filósofo português Agostinho da Silva ao refletir sobre a essência do povo russo e a literatura de Máximo Gorki (e de outros grandes autores russos, como Dostoiévski e Tolstói). Ela o conduzirá por passagens subterrâneas, labirintos emocionais e metáforas, sem lhe dar qualquer ponto fixo de apoio. Com Anne Carson, seria a dança do "Vazio e do Tempo", ao som de uma orquestra que alterna o silêncio da Grécia Antiga — a lembrar o instrumento de cordas associado ao deus Apolo, feito com a carapaça de tartaruga — com acordes modernistas, semelhantes aos da "Melodia Sentimental", de Heitor Villa-Lobos. Com um estilo híbrido de poesia, ensaio e tradução clássica (famosa por "Autobiografia do Vermelho"), Carson mede o espaço entre os corpos — o desejo e a perda —, dançando com os fragmentos do que sobrou da memória e do tempo.
Se o leitor busca o transe e o mistério puro, a mão deve ser estendida a Can Xue. Escolhê-la é preferir a literatura como experiência sensorial e enigmas sem resposta pronta. Se o leitor busca a precisão estética e a beleza da perda, a mão pertence a Anne Carson. Escolher a laureada do Nobel é optar pelo diálogo refinado entre os mitos antigos e as feridas do presente. Abra o salão com Anne Carson; comece a noite com a sobriedade, a clareza cortante e a beleza melancólica de seus versos ensaísticos. Termine a madrugada com Can Xue: quando a orquestra começar a desafinar e o salão se encher de sombras surrealistas, entregue-se ao ritmo imprevisível da autora chinesa. De um lado, a autora de "Amor no Novo Milênio" (Love in the New Millennium), Can Xue, cuja fronte guarda os labirintos oníricos do Extremo Oriente. A sua escrita não descreve o mundo; antes, desata os nós mais profundos e subterrâneos da alma humana, tecendo fábulas metafísicas onde o real e o insondável se fundem numa dança de sombras e epifanias. Estender-lhe a mão seria entregar-se aos enigmas do inconsciente. Do outro lado, a divina Anne Carson: sua poesia é um relâmpago no crepúsculo, clássica e moderna, cortante como o mármore e frágil como uma pétala. Dividido entre o labirinto onírico de Can Xue e a límpida clarividência de Anne Carson, o leitor compreende, por fim, a ironia da sua sorte.
De minha parte, considero a premiação do Nobel de 2026 excludente ou injusta com a grandiosidade do momento. É tamanha a grandeza criativa dessas escritoras — recordistas nas apostas para o Nobel de Literatura deste ano — que o leitor ficaria apenas com os devaneios de uma alegre noite de baile. O prêmio deveria ser dado às duas.
*Marcus Prado é Jornalista