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Voto abestalhado, aqui não tem disso não.

Para alguns, o Nordeste continua sendo território de eleitores previsíveis, conduzidos por discursos e benefícios. Como se pobreza material significasse pobreza de discernimento; como se precisar de assistência social fosse sinônimo de submissão política.

Por Delmiro Campos

TRE prepara as urnas eletrõnicas para o 2º turno das eleições

Delmiro Campos*

A música de Gonzagão, “No Ceará não tem disso não”, foi a primeira coisa que me veio à cabeça diante do resultado de Tiririca nas urnas. O filho de Januário sabia dizer, com humor, muito mais do que parecia.

Eleito em São Paulo com mais de 1,3 milhão de votos em 2010, Tiririca viu seu eleitorado encolher a cada disputa: pouco mais de um milhão em 2014, 453 mil em 2018 e 71 mil em 2022. Sem o mesmo palco paulista, buscou sobrevida política na terra natal. No Ceará, recebeu pouco mais de 5,5 mil votos. Uma derrota tão eloquente quanto foram históricas suas vitórias.

O próprio Tiririca reconheceu que a política cearense é séria e que talvez tivesse brincado demais. A ironia dessa trajetória me leva a uma questão maior: o quanto nós, nordestinos, ainda somos subestimados politicamente.

Para alguns, o Nordeste continua sendo território de eleitores previsíveis, conduzidos por discursos e benefícios. Como se pobreza material significasse pobreza de discernimento; como se precisar de assistência social fosse sinônimo de submissão política.

Precisamos, sim, de proteção social e políticas públicas que enfrentem desigualdades. Mas assistência é direito, não favor; e voto não é recibo de gratidão.

Na eleição presidencial de 2026, os movimentos de rua e a mobilização digital destes últimos dias reafirmam a força do Nordeste. Não porque pensemos todos da mesma forma. Nossa região é plural, contraditória e politicamente exigente. A preferência de muitos por políticas progressistas não representa cheque em branco a partido algum, nem rejeição automática a quem diverge.

O Nordeste não pertence à esquerda, à direita ou ao centro. Pertence aos nordestinos.

Lembro de Ariano Suassuna, socialista assumido e defensor incansável da cultura popular. Em “A política e eu”, expôs as inquietações que sua participação no debate público despertava. Também nós não precisamos pedir licença para pensar, discordar e escolher.

Volto a Tiririca. O circo merece respeito, o palhaço é artista e o riso tem lugar até na política. Mas popularidade não é salvo-conduto para representação parlamentar. E o Ceará, sem diminuir São Paulo, deu uma aula sobre essa diferença.

Escrevo sem predileção partidária. Nasci em Marília, no interior paulista, mas sou filho do Recife e de Pernambuco por vivência, títulos de cidadania e, sobretudo, amor.

A votação de Tiririca, isoladamente, não prova superioridade eleitoral alguma. É, porém, uma metáfora poderosa contra a crença de que basta um personagem para conquistar o eleitor.

O Nordeste bate no peito e exige: me respeitem! Porque aqui o riso é bem-vindo. Subestimar nossa inteligência, não.

*Advogado