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Empreendedorismo, gestão e tecnologia: por que o ensino médio brasileiro não pode mais tratá-los como extracurricular

Por Gerez Figueiredo

O Brasil discute reforma do ensino médio há quase uma década, mas ainda trata empreendedorismo, gestão de negócios e tecnologia como apêndices do currículo sendo abordados em projetos pontuais, feiras de ciências, oficinas isoladas. Enquanto isso, os dados sobre o mercado de trabalho que espera esses estudantes já não deixam margem para dúvida: a formação que a maioria das escolas oferece hoje está descolada da realidade para a qual, supostamente, prepara.

Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, a inteligência artificial e tecnologias de processamento de dados devem impactar 86% das empresas globais no mesmo período. Diante desse cenário, as habilidades mais valorizadas pelos empregadores não são majoritariamente técnicas: pensamento analítico lidera a lista, seguido por resiliência, flexibilidade e agilidade, liderança e influência social, pensamento criativo e autoconsciência. São competências que a educação empreendedora desenvolve de forma estruturada, não como bônus, mas como método.

A própria Base Nacional Comum Curricular reconhece o problema: o empreendedorismo é um dos quatro eixos estruturantes dos Itinerários Formativos, que somam 1.800 das 3.000 horas do novo ensino médio. Mas, apesar desta ser uma diretriz clara, falta execução. Um levantamento sobre a implementação da BNCC nos currículos estaduais mostrou que, das 27 unidades federativas brasileiras, apenas 12 detalharam objetivos claros para esse eixo. Na prática, a maior parte das redes de ensino do país ainda trata o tema como recomendação, não como prioridade.

Enquanto o Brasil discute como implementar, outros sistemas educacionais já naturalizaram esse tipo de formação. Na Finlândia, por exemplo, a educação empreendedora e executivas é mencionada no currículo desde 1994. No Reino Unido, Escócia e Irlanda do Norte lançaram estratégias nacionais de educação empreendedora ainda em 2003, seguidas pelo País de Gales em 2004. A própria Inglaterra é hoje citada como exceção que ficou para trás nesse movimento, o que reforça o quanto essa lacuna custa competitividade a longo prazo, mesmo em economias desenvolvidas.

Esses exemplos nos mostram que nos sistemas educacionais mais bem avaliados do mundo, empreendedorismo e gestão não são conteúdo optativo e sim parte da espinha dorsal da formação para a vida adulta. São esses exemplos que inspiram o modelo que está sendo implantado no Colégio Madre de Deus. A instituição vai inaugurar, no próximo ano, o Pré College, um novo prédio dedicado exclusivamente aos alunos do terceiro ano do ensino médio, estruturado justamente em torno desse tipo de formação. A proposta da escola é transformar a reta final do ensino médio, tradicionalmente concentrada quase só na preparação para processos seletivos, em um período também voltado ao desenvolvimento de competências de gestão, empreendedorismo e tecnologia, apostando nisso como diferencial da instituição.

Formar um jovem apto a pensar como gestor, sem prepará-lo para operar com dados e tecnologia, é entregar metade da equação. As duas competências caminham juntas justamente porque o mercado que as exige também caminha junto: não existe mais separação nítida entre "quem entende de negócios" e "quem entende de tecnologia". Os empregos que mais crescem estão exatamente na interseção dos dois.
O Brasil tem a diretriz curricular certa desde 2018. O que falta é vontade institucional para tirá-la do papel e essa é uma decisão que escolas, redes de ensino e gestores educacionais podem tomar agora, sem esperar por mais uma reforma federal.

Gerez Figueiredo, CEO do Colégio Madre de Deus