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Uma reflexão

Mesmo sob os rigores de um regime de exceção, ele provou que a toga existe para conter o arbítrio

Por Fernando Antônio Marinho

Bandeira do Brasil

Por Fernando Antônio Marinho*

A defesa da democracia não é para mim um conceito abstrato; é uma herança de sangue, consciência e memória. Essa trajetória remonta à Era Vargas, quando o Diario de Pernambuco sofreu o golpe do fechamento arbitrário por determinação do poder autoritário. Naquele momento de escuridão institucional, meu avô, então desembargador e um magistrado daquela estirpe inquebrável, que jamais se dobrou a quem quer que seja, honrou o destino do Judiciário ao expedir a ordem para reabrir o jornal. Mesmo sob os rigores de um regime de exceção, ele provou que a toga existe para conter o arbítrio. Foi ali que se inscreveu o meu DNA na salvaguarda das liberdades.

Décadas depois, coube à minha geração renovar esse compromisso. Nos bancos universitários, ao lado de colegas, participei ativamente do combate à ditadura militar, que, embora já se esfacelasse, ainda demonstrava sua vocação repressiva. Em 1978, presenciei de perto a brutalidade do regime reprimindo com violência os manifestantes em um de seus últimos suspiros de força. A transição ainda se arrastaria por anos, tempo suficiente para deixar um rastro indelével de histórias estarrecedoras sobre famílias que tiveram seus filhos arbitrariamente sumidos pela máquina de Estado.

Ao recordar daquelas vidas interrompidas e das famílias despedaçadas, vejo o presente com profunda apreensão. O jovem de hoje, que se rebela diante de tantas contradições da nossa sociedade, não difere em essência da juventude do passado.

Inconformar-se é um direito e uma força vital. Contudo, rebeldia alguma justifica a entrega de uma nação a uma justiça atrofiada ou a um aparato policialesco que trata a discordância como crime.

O que enfrentamos hoje é um fenômeno igualmente perverso: um processo alimentado pelo desprezo ao conhecimento e pelo triunfo do pseudoconhecimento.

Criou-se a ilusão ingênua de que a salvação da sociedade pode ser depositada nas mãos de uma única figura messiânica, como se existisse uma mente iluminada com o poder absoluto de redimir almas e solucionar dilemas complexos pela força da vontade. Estamos no limite de empurrar boa parte da sociedade para um poço lamacento.

Figuras que emergiram do obscurantismo, movidas pela simplificação e pela hipocrisia, valem-se de táticas de desinformação altamente engenhosas, produzindo estragos já visíveis no tecido social. Basta examinar a lista da maioria dos eleitos para os cargos mais relevantes da República: qual é a densidade intelectual, a bagagem ética e o conhecimento real que essas pessoas possuem sobre a complexidade da nossa sociedade?

A sabedoria milenar já nos alertava: "Quando os justos governam, o povo se alegra; quando os ímpios dominam, o povo geme" (Provérbios 29:2). É urgente refletir com gravidade antes de entregar o corpo e a alma a correntes movidas pelo pensamento curto e pelo ressentimento. A reflexão necessária não deve se focar no vizinho ou no colega de trabalho que pensa diferente, mas na índole daqueles que se articulam para dominar pela força, homens dispostos a destruir a vida e o futuro dos nossos jovens para consolidar seu projeto de poder.

A história humana não registra nenhum exemplo de ditadura bem-sucedida. O autoritarismo nunca produziu prosperidade, liberdade ou justiça duradoura; deixou apenas ruínas, silêncio e opressão. Diante de tudo o que a nossa história e a nossa memória já nos ensinaram, cabe a pergunta decisiva: queremos mesmo tentar mais uma aventura autoritária no Brasil?

Fernando Antônio Marinho é engenheiro civil, professor da USP e neto do Desembargador Luiz Marinho*