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A atualidade da Bauhaus segundo Zeca Brandão

A curadoria do pavilhão alemão destacou-se pela amplitude retrospectiva dedicada à gigantesca amostra, o que motivou uma extensão do tempo de minha permanência no espaço, antes planejado para uma visita breve

Por Marcus Prado

'As pessoas foram obrigadas a se adaptar ao home office e as empresas passaram a ver que era possível', analisa Zeca Brandão

Por Marcus Prado*

Para quem visitou o pavilhão da Alemanha na Exposição Internacional de Lisboa de 1998 (Expo 98) — reconhecida como um dos grandes marcos culturais expositivos do final do século XX — teve a oportunidade conhecer a atualidade e o alcance global do legado da Staatliches Bauhaus. Fundada em 1919 por Walter Gropius (1883-1969) em Weimar, a instituição que revolucionou os paradigmas das artes, do design e da arquitetura moderna, estabelecendo bases conceituais que mantêm profunda ressonância no pensamento urbanístico-arquitetônico internacional, com particular repercussão no contexto brasileiro, até os dias atuais. A curadoria do pavilhão alemão destacou-se pela amplitude retrospectiva dedicada à gigantesca amostra, o que motivou uma extensão do tempo de minha permanência no espaço, antes planejado para uma visita breve. A profundidade da exposição evidenciou não apenas a perenidade dos princípios funcionalistas e estéticos da escola, mas também as conexões históricas e culturais estabelecidas entre seus expoentes — a exemplo do próprio Walter Gropius. A influência dessa escola (que teve no regime de Hitler o seu feroz inimigo) continua sendo estudada nos centros acadêmicos mais avançados da Europa e dos EUA, por grandes estudiosos contemporâneos a exemplo do arquiteto, urbanista e pesquisador pernambucano Zeca Brandão (UFPE). A relevância da Bauhaus no Brasil contemporâneo reside não na cópia de seus cânones estéticos formais, mas na absorção de seu espírito crítico, ético e transformador. aliados ao rigor analítico de arquitetos como Zeca Brandão.

O que nos ensina o mestre Brandão sobre a famosa escola: “A atualidade da Bauhaus não está apenas em sua estética, marcada por formas geométricas, superfícies brancas e ausência de ornamentos, mas sobretudo na permanência de seus princípios de integração entre arquitetura, arte, design e tecnologia. Sua defesa da experimentação e da inovação continua relevante diante de questões contemporâneas, como a fabricação digital e a inteligência artificial. No caso de Gropius, sua contribuição também ultrapassa as características formais de sua obra. Sua concepção do arquiteto como articulador de diferentes saberes e escalas do projeto permanece pertinente. A experiência na Bauhaus e, posteriormente, na Harvard Graduate School of Design, onde dirigiu o Departamento de Arquitetura entre 1937 e 1952, contribuiu decisivamente para transformar o ensino da arquitetura, difundindo uma pedagogia baseada na investigação, na interdisciplinaridade e na aproximação entre projeto e tecnologia. Por isso, acredito que o grande legado deixado tanto pela Bauhaus quanto por Walter Gropius é muito mais metodológico do que formal. As formas passaram, mas o conteúdo permaneceu. Mais do que um estilo arquitetônico, a Bauhaus estabeleceu uma maneira de pensar e fazer arquitetura, aberta à experimentação e capaz de responder às transformações de cada época. Talvez seja justamente essa postura crítica e inquieta que explique sua permanência. Sua maior herança não está na plástica modernista que ajudou a consolidar, mas na liberdade que nos ensinou para recriar formas diante de novos desafios". Ao dividir com o professor Zeca Brandão minhas impressões sobre a atualidade da Bauhaus, quero registrar o centenário em outubro (1926) de inauguração da sua monumental sede, em Berlim.

Marcus Prado é jornalista*