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O patriota aprendiz

Sempre tive em simpatia a impaciência de Glauber Rocha para com os intelectuais "machadianos, como eu, aos quais ele opunha o entusiasmo e a imaginação romântica de José de Alencar.

Por José Almino de Alencar

Retrato do escritor Machado de Assis no livro "O Espelho de Papel", com imagens feitas por Joaquim Insley Pacheco

José Almino de Alencar*

"agradeço a minha pátria seus erros,/ os cometidos, os que se vêem chegar,/ cegos, ativos, nos seus alvos de luto./
[...] /Sim, sou grata, muito grata/ por ter-me feito caminhar."
Ida Vitale

O ceticismo em política é quase sempre reacionário. Nada mais conservador do que o tom pessimista do Eclesiastes, presente na prosa de Machado de Assis e que acompanha a sua ironia militante. Sempre tive em simpatia a impaciência de Glauber Rocha para com os intelectuais "machadianos, como eu, aos quais ele opunha o entusiasmo e a imaginação romântica de José de Alencar.

E, no entanto, mais penosos do que a hesitação paralisante do cético, são os apelos. Melhor ainda, as convocações de gente decente, amigos de esquerda" para que sejamos solidários com erros conhecidos, em nome de altos nobres princípios e de futuros radiosos. E, aí, aí sim, cabe parodiar o Machado de Dom Casmurro: "tudo isso cansa, tudo isso exaure".

Quando eu era adolescente ouvi falar de um doido que ficava horas deitado, olhando o teto e a intervalos intempestivos dizia em profundo desânimo: "E esta burrice que não passa".

Há doido pra tudo. E, para mim hoje em dia, aquele ali havia encontrado uma representação astuciosa, premonitória deste sentimento tão pervasivo na modernidade: o da angústia, informe nas suas causas ou conseqüências,sentinelle que nul viendra relever", "sentinela que ninguém virá render", como está gravado nos versos iniciais da
"Lenda dos séculos" de Victor Hugo.

Obviamente declarar-se burro não seria nem rima, nem solução, emendo eu aqui trazendo o nosso Drummond. Mas, reconhecer-se perplexo com mais freqüência é conselho que ousaria oferecer ao meu povo de esquerda, e, por que não? a toda gente. Na política ou no governo, não cabe a solidariedade com erros. Causa desastres, mas. sobretudo, tornam-se obstáculos a novas perspectivas.

Para os que valorizam o aprendizado como um fazer permanente, dizer "não sei" deveria ser habito salutar. Muitos dos nossos instrumentos analíticos e das referencias históricas que nos proporcionaram uma ilusão de prospectivas danaram-se na poeira do tempo. Passamos a viver e pensar espremidos entre o menos ruim e o pouco melhor.

Será verdade que só em seu maior infortúnio vemos outros seres como nós mesmos. como pensa Elias Canetti? "Será o infortúnio aquilo que os homens mais possuem em comum? A aversão profunda a toda forma de idílio, o aspecto insuportável de toda literatura idílica, pode estar relacionada a isso."

"As famílias felizes se parecem todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneir_ escreveu Tolstoi. É sobre as infelizes que vale escrever, compor, pintar: sobre amores infelizes, épocas infelizes. Sobraria o sentimentalismo artificial, convencional.

Dentro desse mesmo espírito, através de Carlo Ginzburg percebi de repente que o país a que pertencemos não é como quer a retórica mais corrente o país que amamos e sim aquele do qual nos envergonhamos. A vergonha pode ser um vínculo mais forte que o amor. Aristóteles incluiu a "vergonha" (aidos) no rol das paixões, assinalando que ela não é uma virtude, portanto não é, em absoluto, uma questão de escolha: ela se abate sobre nós, ela nos invade - invade nossos corpos, nossos sentimentos, nossos pensamentos - como uma moléstia súbita, cumulativa.

E o que fazer?

*Sociólogo, escritor e ex-presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa