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Filantropia também precisa de gestão

Se queremos enfrentar problemas sociais complexos e produzir transformação em escala, precisamos incorporar à filantropia princípios que o mundo empresarial conhece bem

Por André Bruère

Filantropia precisa incorporar princípios do mundo empresarial em sua dinâmica

Durante muito tempo, falar em filantropia no Brasil significou, essencialmente, falar em generosidade. Pessoas e empresas identificavam uma causa relevante, destinavam recursos e confiavam que aquela iniciativa produziria benefícios para a sociedade. A generosidade continua sendo indispensável, mas, sozinha, não é suficiente. Se queremos enfrentar problemas sociais complexos e produzir transformação em escala, precisamos incorporar à filantropia princípios que o mundo empresarial conhece bem: objetivos claros, governança, gestão profissional, acompanhamento de resultados e responsabilidade na aplicação dos recursos.

Esse modelo já está presente em algumas das maiores instituições filantrópicas do mundo. Organizações como Gates Foundation, Ford Foundation e Rockefeller Foundation operam com estruturas profissionais de gestão, planejamento de longo prazo e avaliação sistemática de impacto. A lógica é simples: quanto mais importante a causa, maior deve ser a responsabilidade sobre os recursos destinados a ela.

Uma experiência pernambucana traduz com precisão essa evolução. O Instituto Primeira Infância Plantar Amor (PIPA) nasceu há oito anos atendendo 20 famílias. Hoje, está presente em 24 municípios de cinco estados do Nordeste e acompanha mais de 1.400 famílias. Recentemente, estabeleceu uma meta muito mais ambiciosa: alcançar 1 milhão de famílias brasileiras até 2035.

Mais interessante do que a dimensão dessa meta é entender a estrutura necessária para transformar ambição em capacidade real de escala. Seu fundador, Pedro Ivo Moura, colocou capital, experiência empresarial e visão de longo prazo a serviço da causa — e foi além: depois que o PIPA venceu a sessão Brasil do Good Start Challenge, com um prêmio de € 250 mil da Van Leer Foundation, Pedro dobrou esse valor, injetando pessoalmente mais € 250 mil no projeto.

Contudo, capital isolado não produz impacto social sustentável. O PIPA conta com uma gestão executiva profissional, liderada por Rogério Morais, e com um conselho focado em acompanhamento e governança.
O papel do conselho não é meramente institucional, mas o de questionar, monitorar métricas e garantir que propósito, recursos e execução permaneçam estritamente alinhados.

Sair de pouco mais de mil famílias para chegar a um milhão não significa simplesmente expandir a operação atual. Exige tecnologia, formação de pessoas, processos replicáveis, produção de evidências e capacidade de transferir conhecimento para organizações e governos de maior alcance territorial. Exige também disciplina na gestão financeira para compreender custos e garantir a sustentabilidade do projeto ao longo do tempo.

Isso não significa transformar uma organização filantrópica em empresa. Suas finalidades são distintas: a empresa cria valor econômico, enquanto a instituição filantrópica cria valor social. Mas ambas compartilham a obrigação de administrar com excelência o patrimônio e os recursos sob sua responsabilidade. Boa intenção é o ponto de partida; gestão profissional e governança são o que garantem impacto duradouro. Fazer o bem exige propósito. Fazer o bem em escala exige gestão.

*André Bruère - Presidente do LIDE Internacional e conselheiro do PIPA