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Clarice Lispector: Para sempre no Recife

A unificação de seu legado no Recife transcende a celebração retrospectiva, configurando-se como o reconhecimento da dívida afetiva e simbólica para com a autora, que elegeu a cidade como cenário de seus anos de formação

Por Marcus Prado

A escritora Clarice Lispector é a homenageada do festival nesta edição

Marcus Prado*

Com uma biografia sempre enriquecida por novas descobertas e debatida em centros de estudos universitários, além de uma obra notoriamente singular, Clarice Lispector (1920-1977) terá sua memória preservada em um ambiente físico no Recife: o secular sobrado da Praça Maciel Pinheiro. Mais do que um museu estático ou um mero repositório de manuscritos — compreendendo mais de 300 peças —, projeta-se um centro de irradiação literária e formação de leitores. A concentração de acervos, correspondências e primeiras edições em um único endereço otimiza a práxis investigativa de pesquisadores e aproxima o público da densidade psicológica e da singularidade humana inerentes à sua escrita. Nesse sentido, a unificação de seu legado no Recife transcende a celebração retrospectiva, configurando-se como o reconhecimento da dívida afetiva e simbólica para com a autora, que elegeu a cidade como cenário de seus anos de formação. Tal vínculo, definido por ela própria como sua “verdadeira pátria”, e “os anos mais felizes de sua vida” é reiteradamente evocado por sua principal biógrafa, Nádia Gotlib, bem como pelo jornalista e acadêmico José Mário Rodrigues (APL).

A genealogia desse projeto remonta a marcos precursores na imprensa pernambucana. Em 9 de dezembro de 1992, o Diário de Pernambuco (Suplemento Panorama Literário) estampou na primeira página o artigo "Um Espaço para Clarice", assinado pela professora e pesquisadora Avanilda Torres, pioneira nos estudos clariceanos no âmbito acadêmico recifense. No texto, a autora rememora a repercussão de uma "Carta Aberta" datada de dezembro de 1987 — por ocasião do décimo aniversário de falecimento da escritora —, que postulava a criação de um espaço cultural no antigo domicílio clariceano, situado na Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista. A repercussão desse artigo desdobrou-se, posteriormente, em um ciclo de palestras temáticas no auditório do DP (1994-1997). Nesse panorama, destaca-se agora o papel fundamental da Associação Casa Clarice Lispector (ACCL), presidida pelo médico Moisés Wolfenson, entidade que viabiliza o processo de restauro do imóvel e a implantação do museu após a cessão do patrimônio físico pela Santa Casa de Misericórdia.

Embora natural de Chechelnik, uma pequena vila da Ucrânia — localidade que mantém registros pontuais e iniciativas informativas bilíngues alusivas à sua origem —, foi na capital pernambucana que ela vivenciou sua vocação intelectual. O sobrado da Praça Maciel Pinheiro, que abrigou a família entre 1925 e 1934, foi o seu primeiro lar na cidade, cujos arredores ficaram marcados de maneira indelével em sua produção literária, impregnados de memórias sensoriais e afetivas. Há nos livros dela algo de incompreensivelmente denso e belo. Entre o sobrado da praça e Clarice havia um sentimento afetivo muito forte. Foi o seu primeiro universo, um cosmos em miniatura que a acolheu desde os primeiros meses de sua vida. Foi o lugar onde ela aprendeu a sonhar.

*Jornalista