Muito antes da exposição: o Laboratório Degas/Borges
Mais do que aproximar presente e passado, a exposição nos convida a atravessar tempos, corpos e modos de olhar e a refletir sobre como o corpo feminino foi representado ao longo da história
*Mariana Albuquerque (Doutora em Comunicação e Semiótica; Coordenadora de Educação do Instituto Ricardo Brennand)
A exposição Degas/Borges chega ao Instituto Ricardo Brennand em uma parceria inédita com o MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, marcando um momento significativo para Recife. A mostra reúne 40 esculturas do mestre francês Edgar Degas e 09 fotografias da artista contemporânea Sofia Borges. Mais do que aproximar presente e passado, a exposição nos convida a atravessar tempos, corpos e modos de olhar e a refletir sobre como o corpo feminino foi representado ao longo da história, como a infância foi socialmente construída e como diferentes artistas escolhem olhar, recortar e construir imagens.
Para a equipe do Núcleo de Educação do Instituto Ricardo Brennand, entrar nesse universo significou mais do que reunir informações sobre artistas e obras. Foi preciso abrir espaço para a experiência, para a pergunta, para o encontro. Criar um território de investigação coletiva no qual diferentes referências, linguagens e saberes pudessem se cruzar, ampliar repertórios e alimentar a construção das mediações.
Foi desse desejo que nasceu o Laboratório Degas/Borges. Um espaço de estudo, experimentação e troca que teve início com uma experiência de nutrição estética, conceito desenvolvido pela arte-educadora Mirian Celeste Martins, compreendido como uma forma de provocar encontros com a arte e ampliar repertórios sensíveis e culturais.
E, se Degas nos convida a olhar para o corpo em movimento, também experimentamos esse corpo. Em uma aula de balé no Ária Social, deixamos por um momento o lugar de quem observa para experimentar princípios relacionados à consciência corporal e ao movimento, encontrando no próprio corpo outras possibilidades de perceber aquilo que a obra nos apresenta.
Em outro encontro, Nara Galvão, diretora do Instituto Ricardo Brennand e doutora em Antropologia, e Beth da Matta, responsável pela apresentação local da exposição, nos conduziram por uma reflexão sobre o corpo em sua dimensão social e sobre os diferentes contextos que atravessam sua representação. Com o professor francês Damien Marre, viajamos para a Paris de Degas e buscamos compreender um pouco mais da cidade, da cultura e do tempo em que sua obra foi construída.
O cinema também entrou nesse percurso. Fomos juntos assistir a um filme francês, ampliando o contato com uma cultura que atravessa a exposição e deixando que outras imagens, narrativas e atmosferas também alimentassem nosso olhar.
Entre uma experiência e outra, os estudos continuaram. Diariamente, nos encontramos para compartilhar referências, levantar questões, trocar percepções e construir coletivamente as propostas de mediação. Arte, história, antropologia, dança, cinema, corpo e imagem foram se entrelaçando em um processo plural e interdisciplinar, no qual cada encontro acrescentava uma nova camada ao nosso olhar.
Porque, antes de convidar alguém a olhar uma obra, também precisamos nos permitir olhar de novo. Precisamos ser atravessados por perguntas, experiências e repertórios que nos façam deslocar o próprio olhar.
Em Recife, a chegada de Degas/Borges representa uma oportunidade de ampliar o acesso à arte e fortalecer a formação de públicos. Para o Núcleo de Educação do Instituto Ricardo Brennand, representa também a reafirmação de uma ideia que orienta nosso trabalho: a mediação começa muito antes de o visitante atravessar a porta da exposição. Ela começa quando nos dispomos, coletivamente, a olhar.