A redenção dos excluídos
É voltar a sentir. É voltar a cantar. É voltar a ser Santa Cruz. É tempo de Santa Cruz
Reginaldo Cabral*
Durante quase quatro décadas, o Santa Cruz caminhou pelas margens do futebol. Viveu longe dos grandes palcos, distante dos holofotes e, muitas vezes, separado de giovanna lacerda sua própria história. No âmbito nacional, regional ou local, o clube foi se apequenando aos poucos. Não houve uma queda única, definitiva. Houve um lento desmanche, feito de temporadas interrompidas, rebaixamentos sucessivos e projetos que nasciam com a promessa de futuro e terminavam antes mesmo de amadurecer.
De tempos em tempos, porém, surgiam os chamados “voos de galinha”: lampejos de grandeza capazes de devolver ao torcedor, ainda que por breves instantes, a sensação de que o gigante estava acordando. Eram conquistas episódicas, quase sempre sem continuidade. O clube subia, respirava, ensaiava um recomeço e, logo depois, voltava a despencar. Não era apenas cair. Era despencar.
E, enquanto o clube perdia espaço, a torcida permanecia. Foi assim que o Santa Cruz construiu uma das mais curiosas relações de resistência do futebol brasileiro. Quando já não havia calendário, sobrava presença. Quando faltavam grandes jogos, sobrava paixão. Quando a camisa parecia pesar mais pelas derrotas do que pelas glórias, ainda havia quem a vestisse com orgulho. O santacruzense aprendeu a conviver com a angústia. O clube, com a precariedade. Mas havia uma diferença fundamental: a torcida não aprendeu a desistir.
Aquilo que em qualquer outra circunstância poderia ser interpretado como exaustão transformou-se em resistência. Torcer pelo Santa Cruz passou a ser quase um ato de contracultura. Uma escolha feita na contramão da lógica, quando a razão aconselhava abandonar o caminho e procurar outro destino.
A cada rebaixamento, uma nova cicatriz. A cada promessa frustrada, uma nova desconfiança. A cada temporada sem perspectiva, uma nova prova de fidelidade. Até que o futebol, depois de tantos anos de silêncio, resolveu escrever outra página.
O grito voltou.
A angústia começou a ceder espaço à euforia. A procissão de torcedores transformou-se em festa. O cortejo, em celebração. E as lágrimas, tantas vezes derramadas pela dor, finalmente encontraram outro motivo para escorrer pelo rosto: a alegria.
O Santa Cruz voltou a respirar. Não voltou, ainda, ao lugar que sua história reivindica. Não recuperou, de uma hora para outra, a grandeza perdida ao longo de décadas. Mas recuperou algo que talvez seja ainda mais importante para quem passou tanto tempo olhando para trás: a esperança. O acesso à Série B representa mais do que uma mudança de divisão. Para uma geração acostumada a ver o clube distante de onde sempre acreditou que deveria estar, significa a possibilidade concreta de reencontro com a própria identidade.
Outrora terror do Nordeste, o Santa Cruz havia se transformado, paradoxalmente, no terror de sua própria torcida. Agora, começa a reconstruir o caminho de volta. Nem todos, contudo, voltaram a acreditar. Há quem ainda observe de longe, desconfiado. Há quem tenha aprendido, depois de tantas decepções, a comemorar com cautela. São torcedores que não perderam o amor pelo clube, mas perderam a inocência. Para eles, a alegria precisa de tempo para se transformar novamente em confiança. E talvez seja justo que assim seja.
Porque a redenção não apaga o passado. Ela precisa aprender com ele. A Série B, portanto, não deve ser apenas o destino de uma campanha vitoriosa. Deve ser o primeiro capítulo de uma reconstrução. O ponto de partida de um Santa Cruz que compreenda, definitivamente, quais caminhos o conduziram ao abismo e quais escolhas poderão devolvê-lo ao lugar que sua história lhe reservou.
A romaria chegou ao estádio. O cortejo virou avalanche. E aqueles que durante tantos anos foram tratados como excluídos do grande futebol brasileiro voltam a ocupar seu lugar na arquibancada, na estrada, nas ruas e, sobretudo, no imaginário de um povo. Depois de quase quatro décadas de espera, o Santa Cruz volta a oferecer ao seu torcedor aquilo que parecia ter se perdido pelo caminho: a possibilidade de sonhar sem pedir desculpas.
Que a dor tenha deixado ensinamentos. Que as quedas tenham produzido memória. Que os erros não sejam esquecidos. E que a Série B não seja o ponto de chegada, mas o começo da caminhada de volta. Porque, para quem nunca deixou de acreditar, a redenção não é apenas subir de divisão.
É voltar a sentir. É voltar a cantar. É voltar a ser Santa Cruz. É tempo de Santa Cruz.
*Professor e Jornalista