Profeta Isaías inspira "Nu" de Cláudio Aguiar
Ao confrontar o público com esses temas em tempo real — mediados por corpos vivos —, a dramaturgia força o espectador a tencionar verdades que permaneceriam abstratas nos limites de um ensaio teórico
Por Marcus Prado*
Transpor temas da Sagrada Escritura e dos livros apócrifos tem sido, ao longo da história, não só um desafio de execução complexa, mas um dos pilares da evolução da dramaturgia, constituindo um dos mananciais hermenêuticos mais fecundos. Há um paralelismo histórico e conceptual que a ficção teatral, enquanto expressão artística, logra solucionar. O teatro possui a capacidade de conferir urgência, corporeidade e peso palpável aos grandes dilemas filosóficos, políticos e existenciais da humanidade. Ao confrontar o público com esses temas em tempo real — mediados por corpos vivos —, a dramaturgia força o espectador a tencionar verdades que permaneceriam abstratas nos limites de um ensaio teórico. Um exemplo paradigmático dessa vertente é a peça A Prostituta Respeitosa (La Putain respectueuse), de Jean-Paul Sartre (1946), na qual o filósofo vislumbrou no gênero dramático uma via de expressão capaz de transcender as limitações metodológicas e formais do ensaísmo.
Se na Europa medieval os autos sacramentais e os dramas litúrgicos foram cruciais para a instrução visual, a articulação entre cultura popular e tradição religiosa também se consolidou como um traço marcante da dramaturgia brasileira, cujo expoente máximo é o emblemático Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. A grandiosidade dessa linhagem artística encontra em nossos dias, no Brasil, um herdeiro criativo e erudito: o escritor cearense radicado em Olinda, Cláudio Aguiar. Um dos nomes mais representativos de sua geração, atuando também como historiador, Aguiar recentemente voltou-se para a mística profética de Isaías em sua peça teatral Nu e outros dramas.
A obra focaliza o impacto do Divino sobre o humano, tema que atravessa uma re-visão na contemporaneidade. Assim, a peça de Cláudio Aguiar entrelaça o anúncio bíblico de Isaías com reflexões acerca da violência, da injustiça e do sofrimento, estabelecendo pontes diretas com o Holocausto e com conflitos contemporâneos, a exemplo da crise em Gaza. Estruturada a partir de um prólogo e de um enredo que contextualizam a narrativa, a peça revisita o ministério do profeta — ativo em Jerusalém por volta de 760 a.C., com ecos até o período de Manassés (697–642 a.C.).
O rigor do texto ressalta o embate intransigente de Isaías contra a ostentação suntuosa, a corrupção das elites e a hipocrisia religiosa, diagnosticando o profundo colapso da pólis sob o jugo da tirania.
Como romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, Cláudio Aguiar foi agraciado com importantes láureas nacionais e internacionais. Entre os reconhecimentos ao conjunto de sua obra, destaca-se o prêmio-homenagem concedido em 1994 pela Cátedra de Poética Fray Luís de León (da Universidade Pontifícia de Salamanca, na Espanha, instituição que também lhe outorgou o título de Doutor Honoris Causa).
Em 2009, conquistou o Prêmio Ibero-americano de Narrativa "Miguel de Unamuno" pelo romance El rey de los bandidos (Editorial Verbum, Madri) e foi proclamado Cidadão de Salamanca (Huésped Distinguido), honraria conferida por unanimidade pela Prefeitura (Ayuntamiento) daquela cidade a grandes personalidades da cultura. No Brasil, recebeu o Prêmio Jabuti em 2015 pelo livro Francisco Julião: uma biografia (Editora Civilização Brasileira).
Marcus Prado é jornalista*