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Tenho saudades dos muros pintados

A legislação eleitoral avançou tanto no controle da propaganda que talvez tenha avançado também sobre o entusiasmo.

Por Delmiro Campos

Os dados são do sistema Divulgacand, do TSE, e foram atualizados na manhã desta sexta-feira (18/9)

Por Delmiro Campos*

Confesso: tenho saudades das casas pintadas em tempo de eleição. Dos muros com nomes e números, das bandeiras nas varandas, das árvores enfeitadas, das faixas feitas à mão e até das ruas cujos moradores pintavam o chão, cada qual querendo mostrar, do seu jeito, de que lado estava.

Era quase como acontece em época de Copa do Mundo: a rua se veste, a casa ganha cor, o vizinho participa, a comunidade se envolve. Talvez fosse menos bonito, menos padronizado, mas certamente era mais vivo.

E não estou defendendo menor rigor sobre candidatos, campanhas, gastos ou abuso do poder econômico. Isso é outra conversa. Falo de algo mais simples: a manifestação espontânea do eleitor dentro daquilo que é seu.

A legislação eleitoral avançou tanto no controle da propaganda que talvez tenha avançado também sobre o entusiasmo.

Hoje, o eleitor pode gravar um vídeo, publicar nas redes e compartilhar sua preferência com milhares de pessoas. Mas, se resolver manifestá-la na fachada, no muro ou na janela da própria casa, encontrará limites de forma, material e dimensão (adesivos de até 0,5m2). A velha faixa artesanal, o muro pintado, a bandeira na residência, a árvore enfeitada, tudo aquilo que traduzia participação popular foi sendo substituído por formas cada vez mais estreitas de manifestação.

E aqui está a contradição que me inquieta: se a manifestação é espontânea e gratuita, ela nasce do eleitor, não da campanha.

Mesmo assim, um gesto genuíno de apoio pode terminar exigindo providências da candidatura para sua regularização.

Penso em cidades como a minha, Casa Nova, na Bahia. Lá existe o distrito de Bem Bom, a mais de cem quilômetros da sede. Imagine um morador que, por vontade própria, pinte sua casa em apoio a uma candidatura presidencial. Como exigir que uma campanha nacional tome conhecimento daquele gesto, localize o imóvel e ainda providencie sua regularização?

Democracia precisa de controle. Evidentemente. Mas precisa também de paixão, pertencimento e espontaneidade, e de menos burocracia e menos ônus para as campanhas e para a própria Justiça Eleitoral, chamada a intervir em manifestações que, muitas vezes, deveriam permanecer apenas como expressão espontânea do eleitor.

Talvez tenhamos conseguido eleições visualmente mais limpas ao preço de deixar a política mais distante das pessoas. E é por isso que tenho saudades dos muros pintados. Não pela tinta, mas pela participação que havia por trás dela

Delmiro Campos é advogado*