A tribalização da verdade
O problema hoje se mostra mais complicado, pois não faltam fatos, sobram
Durante muito tempo, imaginamos que o grande risco para a democracia fosse a mentira. Um fato escondido, uma informação falsa e uma versão manipulada. Bastaria, então, descobrir a verdade e devolvê-la ao espaço público.
O problema hoje se mostra mais complicado, pois não faltam fatos, sobram.
A cada escândalo surgem vídeos, mensagens, gravações, vazamentos, desmentidos e novos desmentidos. Tudo pode ser verdadeiro isoladamente e, ainda assim, produzir uma narrativa falsa. Não é mais necessário inventar. Basta selecionar, ordenar e excluir. Põe-se em jogo uma espécie de pós-verdade feita de verdades.
O excesso de informação não necessariamente esclarece, muitas vezes satura e confunde, onde evidência decisiva passa a circular ao lado de uma suspeita, uma interpretação, um recorte, um meme. Tudo ocupa a mesma superfície e reivindica atenção semelhante. E é aí que a verdade começa a se tribalizar.
A pergunta deixa de ser apenas se isso aconteceu, e passa a ser “quem está dizendo que aconteceu?”. Cada grupo passa a ter seus jornalistas, especialistas, canais e critérios de confiança. Os fatos continuam podendo ser verdadeiros ou falsos. O que se rompe é o espaço comum capaz de reconhecê-los.
O filósofo Peter Sloterdijk ajuda a compreender esse movimento. Sua ideia das esferas descreve indivíduos e grupos construindo ambientes próprios de proteção, pertencimento e sentido. Hoje habitamos também esferas informacionais (invisíveis). Não apenas recebemos notícias: vivemos dentro de sistemas que previamente nos dizem o que merece confiança e o que deve ser rejeitado.
A bolha não precisa impedir que o contraditório entre. Basta neutralizá-lo.
Slavoj iek acrescenta outra camada. A ideologia contemporânea já não depende de ingenuidade. Podemos perceber as contradições de uma narrativa e, ainda assim, continuar dentro dela. Sabemos que uma informação pode estar exagerada, incompleta ou descontextualizada, mas ela ainda cumpre uma função: reforça pertencimentos, confirma identidades e atinge adversários.
Nem sempre compartilhamos aquilo que julgamos verdadeiro. Compartilhamos também aquilo que gostaríamos que fosse verdade.
A ideologia é aquilo que mais facilmente reconhecemos nos outros e mais dificilmente admitimos em nós mesmos. Ela começa quando heroicamente sacrificamos a verdade factual em nome de uma verdade existencial que julgamos superior — aquela que preserva nossa identidade, nossos valores e a imagem que fazemos do mundo.
Por isso o escândalo político contemporâneo funciona de maneira peculiar. Antes, o escândalo era uma revelação: algo oculto vinha à luz. Agora ele frequentemente produz informação demais. Uma denúncia gera uma resposta, que gera um documento, um vazamento, uma análise, uma contra-análise.
Em poucos dias, compreender minimamente o caso exige horas de dedicação, e o indivíduo acaba por delegar então a interpretação à sua tribo.
É nesse ponto que o excesso de verdade começa a produzir inverdade. Cada rede de influência recebe os mesmos acontecimentos e os organiza dentro de sua própria lógica. Toda nova evidência, em vez de encerrar o conflito, é absorvida pela narrativa já existente.
A verdade perde sua força de interrupção.
Vivemos assim um paradoxo: nunca tivemos tanto acesso a tantos vídeos e arquivos, e talvez nunca tenha sido tão difícil construir uma realidade comum.
Talvez, portanto, a pós-verdade não seja simplesmente o triunfo da mentira.
É, como já vimos, mais inquietante, trata-se da tribalização da verdade.
A verdade continua em toda parte, fragmentada, selecionada, curada, instrumentalizada. Mas, ironicamente, quanto mais ela circula, menos somos capazes de compartilhá-la.
Sérgio Bivar
Escritor e empresário