° / °
Cadernos Blogs Colunas Rádios Serviços Portais

Confiança não se prescreve

Nunca soubemos tanto sobre doenças, nunca tivemos tantos recursos para diagnosticar e tratar e nunca a tecnologia avançou tão depressa

Por Diario de Pernambuco

A VCMH corresponde à variação dos custos médico-hospitalares em determinado período, sendo calculada a partir da evolução dos preços de consultas, exames, internações, terapias e demais procedimentos

Por Eduardo Jorge da Fonseca Lima*

Tenho pensado que a Medicina corre hoje um risco que pouco tem a ver com falta de conhecimento. Nunca soubemos tanto sobre doenças, nunca tivemos tantos recursos para diagnosticar e tratar e nunca a tecnologia avançou tão depressa. O risco é outro, o médico conhecer cada vez mais a doença e, aos poucos, se afastar do mundo em que vive o seu paciente.

Talvez por isso uma frase antiga continue incomodando — “O médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe”.

Quem atende sabe bem o que isso significa. O paciente não entra no consultório trazendo apenas sintomas, exames e diagnósticos. Traz a família, seus medos, as dificuldades da vida, aquilo que ouviu de alguém e, agora cada vez mais, o que encontrou no celular antes mesmo da consulta. Às vezes chega informado. Outras vezes, assustado. Quase sempre espera de nós algo que vai além de uma prescrição. Também por isso nossa responsabilidade não termina quando a porta do consultório se fecha.

Uma criança que deixa de receber uma vacina, um paciente que espera meses por um diagnóstico ou uma família que não consegue acesso ao tratamento não representam apenas histórias individuais. Há, por trás de cada uma delas, um sistema de saúde que funcionou ou que falhou.

É nesse espaço que entendo o protagonismo médico. Não como poder, cargo ou defesa de interesses da própria categoria. O médico precisa voltar a ocupar os debates da sociedade porque conhece, talvez como poucos, as consequências concretas das decisões tomadas longe do paciente. E precisa fazer isso amparado pela ciência.
Nunca tivemos acesso tão fácil à informação. O problema é que a boa e a má informação chegam pela mesma tela e quase com a mesma aparência. Um estudo pode exigir anos de trabalho, análise e revisão. Uma mentira bem apresentada precisa de poucos segundos para alcançar milhares de pessoas. Por isso, conhecer a evidência já não basta. É preciso saber conversar sobre ela.

Talvez tenhamos demorado a perceber que explicar ciência também faz parte do nosso trabalho. Não adianta responder à dúvida com arrogância, nem imaginar que autoridade se impõe apenas pelo diploma. Confiança se conquista também reconhecendo limites. Há poucas frases tão honestas na Medicina quanto esta — “ainda não sabemos”. A dúvida faz parte da ciência. A desonestidade, não.

Ao mesmo tempo, os limites do que somos capazes de fazer mudaram muito. Inteligência artificial, genética, medicina de precisão e novos tratamentos colocam diante de nós possibilidades que pareciam improváveis há poucos anos. E junto com cada possibilidade aparece uma pergunta que continua sendo humana — só porque podemos fazer, devemos fazer?

É aí que entra a ética. Na autonomia do paciente, na transparência dos conflitos de interesse, na responsabilidade por nossas decisões e na obrigação de nunca transformar avanço tecnológico em justificativa para esquecer a pessoa.
Tenho repetido uma ideia que resume bem esse desafio. Precisamos de ciência para não errar o método, de ética para não errar o limite e de humanidades para não errar o sentido.

O protagonismo médico de que precisamos talvez seja mais simples do que parece. Começa na conversa com o paciente, passa pela responsabilidade dentro das instituições e chega à participação nas decisões que definem os rumos da saúde pública.

No fim, mesmo cercada por algoritmos, equipamentos e uma quantidade de conhecimento que nenhuma geração anterior imaginou possuir, a Medicina continua dependendo de algo muito antigo, a confiança. E confiança não vem na receita. Ela se constrói em uma consulta, uma decisão e uma atitude de cada vez.

Eduardo Jorge da Fonseca Lima é Médico, Conselheiro Federal de Medicina por Pernambuco e Superintendente de Ensino, Pesquisa e Inovação do IMIP*