Rock Recife: quando a música devolve ao Brasil a alegria de respirar
E talvez não seja apenas um festival. Para muita gente, poderá ser uma espécie de intervalo necessário diante de um Brasil que anda excessivamente carregado
Carlos Frederico Vital
Advogado
Há momentos em que um país precisa mais do que explicações: precisa cantar. O Rock Rec Festival, marcado para 19 de setembro, na área externa do Centro de Convenções de Pernambuco, reunirá Capital Inicial, Jota Quest, Nação Zumbi e outros nomes importantes da música brasileira. E talvez não seja apenas um festival. Para muita gente, poderá ser uma espécie de intervalo necessário diante de um Brasil que anda excessivamente carregado.
Depois de tantas notícias, conflitos institucionais, incertezas e debates que parecem não terminar nunca, uma multidão reunida para cantar representa algo extraordinariamente simples: a possibilidade de respirar, sorrir e celebrar a vida. Porque nem sempre é preciso encontrar respostas para tudo. Às vezes, é preciso apenas lembrar que ainda somos capazes de estar juntos.
A comparação com outras épocas é inevitável. Nos anos 1980, quando o Brasil ainda carregava as marcas da ditadura e caminhava para a redemocratização, a música tornou-se uma das linguagens da liberdade. Capital Inicial, surgido em Brasília em 1982, atravessou aquela geração e se tornou parte da história do rock brasileiro. Outros artistas que estarão no palco ou que representam essa tradição musical também ajudaram a construir a trilha sonora de uma juventude que descobria que liberdade não era apenas uma palavra.
Aquele Brasil tinha suas dores, seus conflitos e suas incertezas. Mas havia também a esperança de que o futuro poderia ser diferente. Vieram as Diretas Já, a abertura política e, em 1988, a Constituição Federal. Desde então, a democracia brasileira percorreu quase quatro décadas de eleições, instituições e permanente disputa de ideias. Mudaram os tempos, mudaram os protagonistas, mas permaneceu uma necessidade essencial: preservar espaços de convivência, liberdade e esperança.
Ideias de liberdade se concretizaram no texto Constitucional, criando instituições fortes o suficiente para tornar perene a almejada liberdade.
A partir de então nomes de peso figuraram nos três Poderes, tais como Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Eros Grau, dentre outros.
A nossa experiência, contudo, tem mostrado imperfeições, onde interesses pessoais estão ultrapassando os interesses nacionais, destoando por completo das notas de esperança dos primeiros festivais que inspiraram nossa liberdade.
A sessão extraordinária do STF de 15 de setembro, transmitida pelos canais oficiais da Corte, expôs ao país mais um capítulo das disputas institucionais que ocupam diariamente o debate nacional. O STF informou que a sessão trataria da Petição 16.662 e seria transmitida pela TV e Rádio Justiça e pelo canal da Corte no YouTube. Ao final, entretanto, o mérito da petição não chegou a ser examinado, diante de pedido de vista que suspendeu a discussão.
O país precisa lembrar de nossas velhas canções expostas nos antigos festivais e estimular novos, para que as canções inspirem novos atos de liberdade.
É justamente nesse ambiente que o Rock Rec chega em boa hora. Não para substituir a política, a Justiça ou o debate público, mas para lembrar que o Brasil é muito maior do que suas crises. Uma guitarra não resolve uma crise institucional. Um refrão não substitui uma decisão judicial. Uma bateria não encerra uma disputa política. Mas a música pode fazer algo igualmente importante: devolver às pessoas, ainda que por algumas horas, a sensação de que a vida não pode ser reduzida às manchetes dos jornais.
Entre uma guitarra e outra, entre o refrão e a bateria, talvez seja possível recuperar aquilo que nenhum conflito deveria nos tirar: a alegria de estar juntos.
Se Deus permitir, estarei na plateia, vibrando com esses artistas e com milhares de brasileiros. Que o som seja alto, que a alegria seja legítima e que a esperança encontre novamente seu refrão.
Viva o Rock Rec. Viva a música. E, sobretudo, viva o Brasil.