Dos tempos da faculdade
O interessante era o efeito da afirmativa no humor dos que ouviam. As conversas se verificavam nos dois bancos da entrada, na sombra de copudos oitizeiros, antes do início das aulas
Vladimir Souza Carvalho*
Eu ouvia, numa roda, o colega de turma mais adiantada que a minha afirmar que, em determinada matéria, Pontes de Miranda concordava com ele. Era o momento maior de regozijo que o estudante de direito podia usufruir. Todo mundo ria. Ninguém procurava saber que matéria era, nem influência nenhuma exercia. O interessante era o efeito da afirmativa no humor dos que ouviam. As conversas se verificavam nos dois bancos da entrada, na sombra de copudos oitizeiros, antes do início das aulas. Nos recreios, em número bem menor, formavam-se grupos aqui e ali, no corredor, anedotas, fatos pitorescos, um escândalo da noite anterior, uma pegadinha muito antes da sua consagração na televisão.
Um dia, eu fui vítima, com a notícia, dada em tom de indignação e tristeza, de ter um cidadão atirado nos testículos do professor X. Eu, na maior inocência do mundo, um passo adiante, indaguei se o tinha acertado. Resposta: não, acertou mesmo foi na mão do aluno Y. Traduzindo: o aluno Y puxava o saco do professor X e a proclamação do fato se revestia de uma anedota. Só tive um caminho: rir também. A conclusão: todos observavam todos.
No primeiro ano, durante algumas semanas, um jornal denominado de O foca, uma página datilografada, e, aliás, bem datilografada, frente e verso, salvo engano, com notas curtas e chistosas focando os alunos. Só podia ser da mesma turma, a míngua de não se referir a alunos de outras turmas. Ensejou um reboliço geral, e, um deles foi de uma senhora, única socialite da classe, permanentemente arrumada, joias nos braços e no pescoço, a reclamar a referência a outra aluna com nome igual ao seu, que podia se confundir com o dela quando solteira, o receio da repercussão. Como reclamou! O foca desapareceu silenciosamente, sem dar pistas dos seus redatores. Depois, ouvi o nome do autor, digo, dos dois autores. Um já bateu perna.
Em 1971, lancei na Faculdade o livro "Quando as cabras dão leite". O diretor me pediu para vê-lo antes do lançamento, acredito, o receio de cunho político. Levei-lhe um exemplar. Leu e fez uma única observação. A palavra visgoso estava errada. O certo: viscoso. Não esqueci. Comentário sobre os contos: nenhum. Ou não gostou ou não era sua praia. Bons tempos, boas lembranças…
*Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras