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O céu baixo já é uma indústria. Pernambuco vai chegar na frente ou atrás?

A China trata o setor como política industrial de Estado, com meta de mais de 300 padrões técnicos publicados até 2030 — definindo a norma antes do mercado existir, para depois moldar o mercado a partir dela. E Pernambuco tem os ativos que essa economia exige

Por Eduardo Peixoto

Panorama do Porto Digital, em Recife, Pernambuco

Voltei de Chengdu e Yichang, na China, com uma certeza que não trago com facilidade: a Economia de Baixa Altitude não é uma curiosidade sobre drones e táxis voadores, é uma nova camada de infraestrutura econômica, do tipo que as rodovias foram no século XX e a internet no início deste. A China trata o setor como política industrial de Estado, com meta de mais de 300 padrões técnicos publicados até 2030 — definindo a norma antes do mercado existir, para depois moldar o mercado a partir dela. Vi isso de perto: a Aerofugia, braço aéreo da Geely, já é a segunda empresa do mundo a dominar o eVTOL tilt-rotor de grande porte, com 2 mil pré-encomendas; e o distrito de Yichang, uma cidade sem tradição aeronáutica, construiu em 18 meses uma plataforma que resolve em minutos, por drone, uma logística que levava horas nas eclusas das Três Gargantas. A lição não é sobre drones, é sobre método: identificar um caso de uso real, pilotar, deixar o padrão nascer da prática e só então escalar com coordenação entre regulador, indústria e governo.

Pernambuco tem os ativos que essa economia exige: Porto Digital e CESAR em software e IA, CISSA em cibersegurança, Suape enfrentando os mesmos desafios que o modelo chinês resolve, o Vale do São Francisco como living lab de agricultura de precisão, e o ITEMM, em Belo Jardim, justamente quando 35% dos incidentes com drones se originam em sistemas de energia. Existe ainda uma janela regulatória real: a Consulta Pública do RBAC-100 na ANAC equivale ao estágio em que a China estava em 2017, antes de sua norma-mestra. Influenciar os cenários-padrão agora custa muito menos do que renegociá-los depois.

Por isso preciso ser direto: a SECTI fez a parte que cabia ao governo, abrindo a porta com o CCPIT. Essa articulação, aliás, já é fruto do acordo de cooperação técnica firmado entre o Governo do Estado, por meio da SECTI, e o LIDE, justamente para desenvolver a infraestrutura de tecnologia de Pernambuco através de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) — a Missão Sichuan é uma primeira entrega concreta dessa parceria, não um gesto isolado. Mas política industrial não se faz só com governo e academia — quem constrói é a iniciativa privada, que investe, contrata e assina os contratos reais.

O empresariado pernambucano precisa ter assento estrutural, não protocolar, no Grupo de Trabalho Estadual, nos subsídios técnicos à ANAC e nas negociações com os parceiros chineses identificados na missão. A onda já chegou. A pergunta é se vamos ajudar a escrever as regras agora, ou descobrir em 2028 que outros estados já ocuparam o espaço que era nosso.

Eduardo Peixoto é Presidente do LIDE Digital, Embaixador do BR Angels e Conselheiro da Blue Technology. Participou da Missão Sichuan — Economia de Baixa Altitude, SECTI-PE, Chengdu e Yichang, julho de 2026