O império da banalidade
O predomínio da retórica da banalidade constitui um dos fenômenos mais insidiosos da política contemporânea
Por Marcus Prado*
Uma análise preliminar da propaganda político-eleitoral televisiva em rede nacional, do cotidiano digital e das redes sociais evidencia a recorrência de um cenário marcado por carência de ideias e manifesto despreparo para os cargos almejados. O predomínio da retórica da banalidade constitui um dos fenômenos mais insidiosos da política contemporânea. Caracterizada por clichês, promessas vazias e lugares-comuns — além de uma linguagem destituída de substância e coerência —, essa prática reaparece incessantemente no Brasil, sustentada pela amnésia quase coletiva da população.
O despreparo para servir às grandes causas não se resume à lacuna de instrução formal, mas traduz-se em uma deficiência profunda de competência política, fundamental para representar o povo e legislar. O exercício do mandato exige uma visão que transcenda interesses paroquiais ou populistas, bem como a capacidade de compreender a hierarquia das leis, a mecânica da promulgação de emendas constitucionais, de leis complementares e ordinárias, e de avaliar o impacto jurídico de um projeto. Frequently, o candidato despreparado confunde o papel do legislador com o de um administrador municipal, reduzindo o mandato à obtenção de verbas para redutos eleitorais específicos em troca de apoio político, ao mesmo tempo em que ignora as grandes pautas de interesse coletivo.
Para aprofundar a leitura: Em suas análises sobre o empobrecimento do pensamento político, Hannah Arendt (Entre o passado e o futuro, Editora Perspectiva) diagnosticou com precisão cirúrgica os automatismos verbais e as fórmulas prontas, práticas que dispensam o sujeito de elaborar um juízo crítico sobre a realidade do país, do povo, da cidade. De igual modo, para Karl Popper (A sociedade aberta e seus inimigos, Editora Itatiaia, pp. 40-79), os automatismos verbais configuram sintomas de um "fechamento" intelectual que anestesia a capacidade de julgamento crítico, “substituindo a análise sóbria e testável da realidade por chavões que aprisionam o indivíduo no dogmatismo”. Esse fenômeno encontra forte eco na crítica de Martin Heidegger (pp. 27 e 35 de Ser e tempo) ao "falatório" e ao modo de ser inautêntico, no qual o discurso se autonomiza e passa a repetir o que já foi dito simplesmente porque "assim se fala". Essa repetição acrítica gera uma ilusão de compreensão que anula a faculdade de julgar.
A linguagem deixa de ser um instrumento de revelação para se converter em mecanismo de ocultação e manipulação. A retórica da banalidade escancara-se no país — nesta hora agônica da Nação, em que o povo presencia, estarrecido, o risco sem precedentes infligido às bases democráticas — como um anestésico que transforma o discurso público num eco monocórdio. Praticamente tudo se torna catalogável por slogans e chavões, esvaziando a potência reveladora da linguagem. Essa retórica prospera em um ambiente de opiniões prontas, onde o excesso de ruído informativo mascara a indigência intelectual. Como aponta Guy Debord (A sociedade do espetáculo, Editora Contraponto, pp. 102-105), “o discurso político torna-se oco porque não visa ao debate substancial de ideias, mas à exibição de aparências, transformando o cidadão em mero espectador passivo de uma encenação vazia”.
Continua: Palavras do profeta Daniel, as ideias de Jürgen Habermas e trechos da Epopeia de Homero parecem escritos para o Brasil de hoje.
*Marcus Prado é jornalista e especializado em Cultura.