Ariano Suassuna, pastor de cabras
Logrou avivar o apetite intelectual, inclusive, da legião de ávidos "recitadores" de fragmentos homéricos que, paradoxalmente, jamais se dedicaram à imersão integral no poema
Nos círculos cinematográficos, ecoa a adaptação fílmica de "A Odisseia", a monumental epopeia atribuída ao vate helênico Homero, dirigida por Christopher Nolan. Logrou avivar o apetite intelectual, inclusive, da legião de ávidos "recitadores" de fragmentos homéricos que, paradoxalmente, jamais se dedicaram à imersão integral no poema. A película converteu-se num grande sucesso de bilheteria, compelindo tanto eruditos quanto diletantes a especularem sobre a transposição da poética vetusta para a modernidade audiovisual. É fascinante observar como essa releitura cinematográfica possui o condão singular de mobilizar o imaginário coletivo, resgatando a centralidade da tradição clássica no debate cultural. Nesse horizonte de expectativas, a obra de Nolan promete não apenas honrar o legado mítico da antiguidade greco-latina, mas também submeter sua grandiosidade estrutural ao crivo da linguagem fílmica contemporânea. Resta averiguar se a tradução de tais versos basilares para a tela grande corresponde à monumentalidade intrínseca do texto fundador da civilização ocidental. No Livro 9 de "A Odisseia", sobre a chegada segura de Odisseu de navio à "Ilha das Cabras", ao largo da costa da terra dos Ciclopes — com a descrição detalhada da geografia da própria ilha e até mesmo o episódio em que Odisseu e seus companheiros abatem com arcos e lanças 108 cabras selvagens —, encontrei uma evocação do incrível gosto do famoso dramaturgo Ariano Suassuna pela criação de cabras.
A atividade o tornou tão conhecido em Taperoá (Paraíba), sua cidade natal, ao lado de seu primo Manuel Dantas Suassuna, que passou a ser chamado não apenas de escritor famoso, mas também de "O pastor das cabras".
O poeta, escritor e professor Carlos Newton Júnior (UFPE), biógrafo mais constante, minucioso, da vida e da obra do autor de "O Auto da Compadecida", (ele ocupa o lugar de autoridade sobre a obra de Suassuna), assim descreve o lado pouco conhecido do mais famoso dramaturgo brasileiro do seu tempo, que também foi um grande romancista: "Ariano tinha um enorme entusiasmo pela criação de cabras, que desenvolveu com seu primo Manuel Dantas Vilar Filho, o 'Manelito'. Investiu nessa criação o dinheiro do prêmio que recebeu com seu romance 'A Pedra do Reino', melhor livro do ano em 1972 pelo Instituto Nacional do Livro. As cabras eram criadas na fazenda Carnaúba, de 'Manelito', em Taperoá. Ariano dizia que a caprinocultura representava um enorme potencial para o desenvolvimento econômico do semiárido nordestino". Três meses antes da morte de Ariano, eu estava na cidade de Taperoá quando Zélia de Andrade Lima, a senhora do Engenho Pombal, esposa de Ariano e sua paixão a vida inteira, foi homenageada pela Câmara de Vereadores como Cidadã Honorária da Cidade. Foi quando conheci o primo Manuel Dantas. Era de impressionar o saber que ele acumulou ao longo dos anos, como ninguém no Sertão paraibano, dividindo com o primo e sócio, Ariano, métodos inovadores de criação de caprinos em áreas de clima quente. Manelito escreveu a seu modo, com a ciência dele próprio e sua garra nordestina, uma epopeia sertaneja, tendo como cenário o clima hostil e os elementos da natureza.
Por fim, aos que desejam saciar a vontade de ler algo mais sobre o filme "A Odisseia" sugiro a leitura de "Abate de Cabras no Livro 9 de A Odisseia", de Steve Reece, publicado pela Cambridge University Press (2026).