UniAeso, gratias ago
A instituição enfrentou toda sorte de dificuldades para materializar o seu sonho de reviver em Olinda a fundação dos cursos jurídicos, iniciada no vizinho Mosteiro de São Bento
*Por Ricardo Vasconcellos Coelho
O débito de gratidão que temos com a AESO (FADO/UNIAESO), com seu fundador, o Prof. Inácio de Barros Melo, e com a atual reitora, Dra. Ivania de Barros Melo, na verdade não é só meu, mas seguramente de toda a comunidade acadêmica. Todos nós somos seus devedores. Ele foi um desses preceptores que arrostaram a precariedade de meios no auge da ditadura militar para ter o gesto de audácia que foi implantar, em 1968, uma instituição hígida e conceituada, formando defensores do Estado de Direito.
Enfrentou toda sorte de dificuldades para materializar o seu sonho de reviver em Olinda a fundação dos cursos jurídicos, iniciada no vizinho Mosteiro de São Bento. Ele foi um desses obstinados que construíram com perseverança e muito saber a reputação do que hoje é o ensino jurídico no Estado, sendo posteriormente a AESO transformada em uma instituição plural, com vários cursos de graduação e pós-graduação em múltiplos setores, como negócios, comunicação e tecnologia.
Se hoje o Direito que se pratica em Pernambuco é reconhecido em todo o país, é a profissionais de sua estatura que somos devedores. Esse preito de gratidão precisa ser reconhecido, aclamado e eternizado pelas instituições. Na verdade, se todas as homenagens esquecidas no passado fossem concedidas post mortem ao Prof. Barros Melo, as maiores honrarias da comunidade jurídica ainda seriam pequenas diante da relevância do trabalho por ele desenvolvido em benefício da educação.
No dizer de Saint-Exupéry, “aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós; deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”. O Dr. Barros Melo me permitiu trilhar esse caminho e iniciar a docência após uma entrevista épica, que perdurou por incontáveis horas, como ele sempre fazia com quem pretendia lecionar em sua faculdade. Foi assim que iniciei minha jornada de 35 anos, debutando como professor do 5º ano de Direito, sendo mais jovem do que a maioria dos alunos. Ainda sinto o frenesi no coração de quando comecei. Trazia expectativas e vontade de crescer, mas o que encontrei superou tudo o que imaginei: lecionar sempre foi paixão e encantamento.
A AESO sempre foi primorosa. Nunca deixou de estar conectada com instituições no exterior, mantendo programas de intercâmbio internacional com centros renomados como a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), o Instituto Politécnico de Tomar, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH), o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), o Instituto Universitário Sophia (IUS) e a Universidade de Salamanca. Registro que fui um dos beneficiários desse programa em meu curso de mestrado e doutoramento na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.
O fim das atividades no campus Olinda nos deixa um sentimento de perda e luto. O fechamento de uma tradicional e honrada IES não pode ser encarado como algo rotineiro; é preciso se indignar. Se ainda existe o interesse governamental em oferecer aos brasileiros uma educação de qualidade, é preciso reafirmar que a educação é um serviço público essencial na forma preconizada pela Constituição, sendo responsabilidade do Estado zelar para que não se transmute o ato complexo de educar em mera atividade comercial.
A suntuosa sede da AESO em Olinda — com suas memórias, seu belo avião pintado por Romero Britto, suas obras de arte em estilo greco-romano, suas placas de formatura com nomes e vidas que se eternizam, com alunos e mestres compondo a história — permanecerá em nossas lembranças. Levo saudades de todos com quem convivi, de gente, enfim, de ontem e de hoje; dos que estiveram conosco e dos que se foram. Sinto saudade do cheiro dos corredores e das salas de aula. Fica a nostalgia.
Para mim, nada é mais doce do que ouvir um “muito obrigado” dos meus alunos. Gosto de uma frase de Carlos Drummond de Andrade que diz que “o último dia do ano não é o último dia do tempo”. Eu e minha família, mais uma vez agradecidos, podemos dizer a todos que “fica sempre algum perfume na mão de quem oferece uma rosa”. Pelas flores que sempre recebi dos meus pares e alunos, retribuo de coração: gratias ago.
E que o sonho seja como a fênix, ave sagrada da mitologia que, ao fim de sua vida, renasce das próprias cinzas. Ela simboliza a imortalidade, a força, a resiliência e o recomeço. Que assim seja!
*Ricardo Vasconcellos Coelho é Professor, decano da UNIAESO e Procurador de Justiça do Ministério Público.