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De piso escorregadio e de tapa

O sapato de sola não foi feito para se andar em piso liso. É de sua essência ser escorregadio. Passo lento e cauteloso. Uma pisada fora do recomendado pode resultar num escorrego e o chão é o ponto de aterrissagem da queda.

Por Vladimir Souza Carvalho

Sapatos

O sapato de sola não foi feito para se andar em piso liso. É de sua essência ser escorregadio. Passo lento e cauteloso. Uma pisada fora do recomendado pode resultar num escorrego e o chão é o ponto de aterrissagem da queda. Há um tipo de piso, não sei de cerâmica, ou de granito, que fica sensível a qualquer movimento diferente. Uma vez, um advogado, ao sentar a minha frente no meu gabinete, nos tempos do primeiro grau na Justiça Federal, sem querer, sua perna tocou na cadeira, e, sem querer, a empurrou para fora do lugar. Ao sentar, o fez no chão, dando-se, para perceber, ao se levantar, o coração acelerado. Culpa aí do piso ou do seu movimento para trás? A discussão perde o sentido. A queda ocorreu e não há como fazer o tempo retroceder.

Na Faculdade de Direito foi mais grave. O corredor largo, estudante calçando sapato de sola, numa passada diferente, se desequilibrou. E na busca de não cair, jogou a mão direita na parede e a mão esquerda, bem, a mão esquerda se abriu no ar e acertou em cheio um colega de turma que ia passando. Um senhor tapa na cara foi dado no colega. Fez até barulho.

Seguiu-se um bate-boca, o agredido querendo devolver o tapa na desforra que lhe veio à mente, - não era de levar desaforo para casa, muito menos, apanhar e não revidar -, os dois cercados pelos apaziguadores, e, em poucos minutos, não se registrou outro tapa, nem disparo de arma de fogo, a aula começou e o corredor voltou a sua solidão temporária. Eu no primeiro ano, não me era dado a ousadia de averiguar o que se seguiu depois, depois, que o tapa recebido deixou de doer e a sua marca no rosto da vítima desapareceu. Os dois não se agarraram, nem precisou de chuva para separá-los, como sói acontecer quando é briga de galos no terreiro.

No tribunal, eu me movia com extremo cuidado. Nada de pressa. O sapato de sola imperando. O de borracha me dá a impressão de ficar mais baixo do que já sou. Deixo o esportivo para ocasiões em que o terno não se faz devido, a escolha recaindo no sapato sem meia. E a meia? Adquiri, certa vez, uma roxa, típica de bispo. Me corrigiram. Não assentava para terno. Fiquei nas cores preta e marrom, a depender da cor do terno. Ao calçá-la, aqui e ali, a cena do tapa, na Faculdade, pede texto. Ninguém a reclamar. A vítima já é falecida. Não vai ler estas linhas.

Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras