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Mais Vida: a cidade que ouve

Ao completar dez anos, o Mais Vida soma 68 territórios impactados e cerca de 18 mil famílias que participaram diretamente da transformação

Por Camila Inocêncio

Prefeitura do Recife

Há dez anos, o Recife vem provando que transformar uma cidade não é apenas erguer estruturas, mas construir relações. Essa é a premissa do Mais Vida, programa da Prefeitura do Recife, implementado pelo Gabinete de Inovação Urbana (GIURB), voltado à requalificação urbana de áreas vulneráveis, apoiado no urbanismo social e no pertencimento efetivo dos moradores.

A iniciativa nasceu de uma constatação incômoda: entregar serviços públicos não basta se a população não participa do processo. Sem diálogo, até as obras mais bem projetadas se deterioram, como é o caso de contenções comprometidas pelo descarte de lixo na drenagem ou pelo uso inadequado da estrutura, entre outras situações que só o convívio com o território revela.

Foi dessa reflexão que nasceu a primeira experiência do programa, no Córrego do Jenipapo. As contenções ganharam cor, espaços ociosos recuperaram função social e a arte passou a ocupar cada detalhe da paisagem. Tudo construído com participação ativa da comunidade.

A metodologia do Mais Vida se estrutura em escutas participativas, mapeamento afetivo e diálogo direto com os moradores. O projeto urbano só começa depois da primeira escuta no território, feita pelo GIURB. Esse processo garante soluções eficientes e resultados visíveis desde os primeiros dias após a obra.

É por essa metodologia que o programa se tornou referência em intervenções de baixo custo e alto impacto, mostrando que ouvir quem vive o lugar é condição fundamental para soluções assertivas. O modelo de urbanização sem diálogo com os moradores já é uma prática ultrapassada, que fere o próprio princípio da eficiência administrativa. Afinal, quem é o verdadeiro especialista do território: o urbanista ou o morador?

Nesse sentido, o GIURB, através do Mais Vida, já até exportou conhecimento e auxiliou em projetos exitosos, como o recentemente executado pelo Movimento União BR, na comunidade do Vasco da Gama, onde a equipe responsável pelo Mais Vida atuou diretamente nas escutas e processos sociais envolvidos, entregando sua expertise, inclusive, na ajuda da escolha dos artistas que fizeram a intervenção de pintura.

Ao completar dez anos, o Mais Vida soma 68 territórios impactados e cerca de 18 mil famílias que participaram diretamente da transformação. Os efeitos são sentidos por quem mora ou passa por esses espaços: moradores compartilham fotos e vídeos nas redes, e artistas locais escolhem os lugares como cenário para clipes e shows. Essa disseminação transformou o Mais Vida em referência metodológica. Depois de uma década, o Mais Vida segue mostrando que a cidade que dura é a cidade que se constrói junto e que o projeto urbano começa muito antes da obra: começa na escuta.

Camila Inocêncio - Gerente-geral de Intervenções Urbanas