A oferta de préstimos a um juiz do interior
A recomendação era do juiz ouvir os que apareciam no fórum. A época exigia. Nas comarcas do interior só um juiz se fazia presente
A recomendação era do juiz ouvir os que apareciam no fórum. A época exigia. Nas comarcas do interior só um juiz se fazia presente, o número de advogados pequeno, o que justificava abrir espaço para escutar os que batiam a porta do fórum. Eu ouvia. Era me anunciar e ingressar. Decisão, nenhuma. O juiz é juiz no seu processo. Não daria uma ordem verbal sem força alguma. No papel, o Judiciário se apoiava. Se o fato cheirasse a crime, tomava em termos. Na única vez que assim ocorreu, o denunciante esquivou-se. Não topava assinar. Eu não poderia levar o fato a Polícia sem sua assinatura? Não. Agradeceu a atenção e se retirou.
Duas pessoas, nas comarcas por onde passei, mereceram um lugar nos escombros da memória. Ambas foram se colocar a minha disposição. Da primeira, indaguei o ramo de sua atividade. Declinou três: tocava violão, cantava e ingeria cerveja. Assim fazia com um magistrado de datas pretéritas, a cerveja bem gelada, o violão dando vida a clássicos boleros, o chão se tornando cheio de garrafas vazias, a recordação gostosa de boas tocatas, afinal, serenata se faz no frescor das noites. Não consegui prender o riso.
Em outra, logo no início de minhas atividades, um cidadão, já de idade, se apresentou. O objeto dos serviços é que me impressionou. Mergulhou no passado para esclarecer que um magistrado, em tempos idos, nada decidia sem lhe ouvir. Era, então, uma espécie de conselheiro mor ou de primeiro ministro. Ouvia e indicava o caminho correto. Também recusei. Não conseguia sair do processo e, paciência, entendia que se eu era o juiz, a decisão me pertencia.
Entendi, depois, que o costume era a decisão verbal. Num caso em termo da comarca. As partes me procuravam, recomendava contratar advogado, até que um informou que o juiz tal já tinha decidido. Isso há uns quarenta anos atrás. Ótimo. A luz no fundo do túnel. Vamos desenterrar o processo, que não existia. Foi decisão de boca. Nada feito. Fiquei na minha. Quando os interessados se cansaram de ir ao fórum, ingressaram com a demanda. Fiz até inspeção para ver o local. Sentenciei. Com quase meio século, a questão era decidida. Antes tarde do que nunca.
Vladimir Souza Carvalho - Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras