Os novos autores pernambucanos & Alcir e Bajado
Uma geração de bons escritores destaca-se por estabelecer um diálogo tenso com a herança que recebe
Os da pós-Geração 65 sugerem afinidades com a tradição literária do Recife. Não os defino como integrantes de uma nova “geração” pernambucana de escritores, poetas e ensaístas. É cedo para dizer se conseguem capturar o espírito do tempo, de modo que suas obras continuam a dialogar com o futuro, transformando a contingência histórica em arte duradoura. Uma geração de bons escritores destaca-se por estabelecer um diálogo tenso com a herança que recebe. Mais do que o surgimento de nomes que merecem a atenção do leitor, um novo tempo pernambucano me parece surgir na literatura pernambucana. Perante o que tenho lido, imediatamente ocorre-me a impressão de que o Recife continua sendo historicamente uma cidade aberta às novas vocações literárias.
Nossos autores desenham uma travessia entre o ambiente da tradição literária da cidade e as inquietudes do nosso tempo, não apenas o pernambucano. Esse novo percurso tem como iniciadores, nos campos da ficção, depois de Gilvan Lemos e Raimundo Carrero: João Câmara, que surpreende como excelente contista. Consagrado nas artes plásticas, Câmara revela uma faceta literária igualmente sofisticada: a de pintor e escritor. Essa descoberta veio a público de forma mais ampla com o lançamento de seus sete volumes de narrativas, reunindo contos escritos ao longo dos anos. O mais recente, Retábulos, Predela, mergulha em temas com uma complexidade impressionante. Sidney Rocha, Carlos Newton Júnior, Cláudia Cavalcanti, Juliano Ferro, Walter Moreira Santos, Cícero Belmar, Cida Pedrosa, Cleyton Cabral, Micheliny Verunschk, Flávia Suassuna: eles respondem pelo que há de melhor na literatura pernambucana dos nossos dias no gênero ficção. São todos bons autores, cujos anos de formação coincidem com o advento da internet e dos smartphones; cresceram imersos em telas, algoritmos e conectividade. Para eles, o distanciamento físico e a hiperconectividade digital já integram a normalidade da vida.
Cito o caso recentíssimo de Tito Lívio Lisboa com seu novo livro, Pulsos cortados. Autor com ampla formação na poesia tradicional e metrificada, ele estudou os clássicos, dos gregos aos latinos, passando pelos grandes sonetistas de língua inglesa e portuguesa. Entre sonetos, redondilhas, odes e elegias, vai construindo sua carreira poética, tendo lançado seis livros e recebido elogios de críticos e poetas de renome. Por fim, Carlos Newton Júnior convence como excelente poeta e ensaísta, unindo a criação em versos à reflexão crítica profunda. Dele, como poeta, em parceria com o pintor Flávio Tavares, a ideia de resgatar no livro recente Abecedário do amor. A arte das Iluminuras e Letras Capitulares era executada por monges copistas em mosteiros para valorizar textos sagrados e obras literárias importantes.
Feito este registro, há uma notícia que desejo compartilhar em memória de dois importantes artistas pernambucanos: o fotógrafo Alcir Lacerda (1927-2012) e o pintor Bajado (1912-1996), dois patrimônios culturais de nosso estado. Mestre da fotografia como arte maior, Alcir — famoso sobretudo pelo domínio técnico e estético da fotografia em preto e branco — conta com uma amostra permanente no Shopping Patteo (Olinda). Bajado foi o nome escolhido, há poucos dias, para um complexo residencial no bairro de Casa Caiada, com a marca AWM. Essas duas iniciativas são exemplos notáveis, estimulantes e incomuns de como o setor privado pode atuar na preservação do patrimônio cultural humano. (O físico pernambucano mundialmente famoso Mário Schenberg, até agora, só é lembrado no Recife com uma placa em um edifício de Boa Viagem). Ao integrar a arte desses criadores ao cotidiano urbano, essas homenagens retiram a memória de dois artistas do isolamento, dos arquivos e do olvido, devolvendo-os ao convívio público.
*Jornalista