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A seleção é o reflexo do Brasil

Enquanto não recuperarmos a seriedade, a competência e o senso de responsabilidade na vida pública, continuaremos procurando explicações para as derrotas nos gramados, quando a verdadeira derrota começou muito antes do apito inicial

Por Joel de Hollanda*

Seleção Brasileira em partida da Copa do Mundo 2026

Durante décadas, o futebol brasileiro foi tratado como o verdadeiro ópio do povo — uma cortina de fumaça capaz de esconder as mazelas de um país desigual. Hoje, porém, nem essa paixão nacional consegue anestesiar a realidade. O declínio da Seleção Brasileira não é apenas esportivo; tornou-se o retrato de um país que perdeu referências, abandonou valores, planejamento e compromisso com a excelência.

Se outrora a seleção simbolizava a inesquecível “pátria de chuteiras”, hoje parece representar uma “pátria de tornozeleira”, onde criminalidade, impunidade e inversão de valores convivem com a resignação de uma sociedade que já não se surpreende com o absurdo.

Dentro de campo, falta o espírito de quem carregava o orgulho de representar milhões de brasileiros. Fora dele, prevalece a lógica do mercado. Muitos atletas milionários, acostumados à bolha de riqueza e privilégios da Europa, enxergam a convocação mais como um fardo do que como uma honra nacional. A camisa amarela perdeu a mística construída por gerações que transformaram a ginga, a criatividade, o talento e a garra em patrimônio do futebol mundial.

Há uma inquietante semelhança entre o conformismo da seleção diante das derrotas e a passividade com que o país assiste aos sucessivos escândalos políticos, descalabros econômicos e abusos institucionais. Em ambos os casos, a indignação foi substituída pela indiferença. A perda da identidade da camisa canarinho reflete um Brasil que desaprendeu a planejar o futuro, desprezou o mérito e se acomodou à cultura do improviso. O futebol reproduz o que tantas vezes se observa nas instituições públicas: desfile de vaidades, exibição de poder, ausência de planejamento e falta de compromisso com resultados duradouros.

A CBF, por sua vez, tornou-se símbolo desse modelo. Em vez de priorizar a formação de talentos, a gestão eficiente e o mérito esportivo, frequentemente transmite a imagem de uma estrutura dominada por interesses políticos, corporativos e econômicos. O sucesso beneficia poucos; o fracasso recai sobre milhões de torcedores. Enquanto isso, multiplicam-se vexames diante de seleções antes consideradas tecnicamente inferiores.

Esses resultados extrapolam o esporte. Revelam um país acostumado ao improviso, incapaz de estabelecer objetivos de longo prazo e resistente às reformas estruturais de que tanto necessita. Preferimos soluções imediatas à construção paciente de um futuro sólido.

O Brasil que encantava o mundo pela alegria, criatividade e ousadia do seu futebol perdeu essa essência. A bola murchou porque, antes dela, esvaziaram-se valores como responsabilidade, disciplina, respeito ao mérito e compromisso com o interesse coletivo.

O futebol brasileiro atravessa uma grave crise. O Brasil, porém, enfrenta algo ainda mais profundo: uma crise de identidade. Enquanto não recuperarmos a seriedade, a competência e o senso de responsabilidade na vida pública, continuaremos procurando explicações para as derrotas nos gramados, quando a verdadeira derrota começou muito antes do apito inicial.

 

*economista