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A miopia do protecionismo

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de ampliar tarifas sobre uma vasta gama de produtos de origem brasileira expõe uma contradição profunda entre táticas de proteção de curto prazo e a macroestratégia geopolítica de longo prazo

Por Gabriel A. L. A. Castelo Branco

Exportações

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de ampliar tarifas sobre uma vasta gama de produtos de origem brasileira expõe uma contradição profunda entre táticas de proteção de curto prazo e a macroestratégia geopolítica de longo prazo. Em audiências públicas no Congresso americano, parlamentares e formuladores de políticas viram-se diante de um questionamento aritmético elementar, mas devastador: os EUA vendem mais para o Brasil do que compram dele. Diante de uma balança comercial historicamente deficitária para o lado brasileiro nas trocas bilaterais com Washington, a imposição de barreiras aduaneiras unilaterais configura, no jargão dos negócios, um autêntico "tiro no pé".


Sob a ótica da gestão de riscos e da logística internacional, o primeiro efeito de um
movimento protecionista dessa magnitude é a quebra da previsibilidade operacional. Redes globais de suprimentos operam na busca contínua por equilíbrio de fluxos, e é justamente esse equilíbrio que se rompe quando uma das partes altera unilateralmente as regras do jogo.

Na logística de transportes, o desequilíbrio na balança comercial já impõe desafios
severos relacionados ao frete de retorno (backhaul). Quando um parceiro comercial
superavitário adota tarifas que contraem as importações vindas do país comprador, ele
deteriora a eficiência logística sistêmica como um todo. O risco imediato de retaliação por parte do Brasil, por meio de tarifas-espelho sobre bens de alto valor agregado americanos, como combustíveis, etanol, produtos químicos e maquinários, eleva o custo do frete global e encarece insumos fundamentais dentro do próprio mercado norte-americano, anulando, na prática, o suposto benefício protetivo.


Todavia, o erro mais crítico dessa abordagem não reside apenas no encarecimento das
cadeias de suprimentos ou na ineficiência logística gerada. O desdobramento mais
contundente, e o que verdadeiramente deveria preocupar os estrategistas de Washington, é o inevitável realinhamento das rotas de comércio do Brasil. Ao impor barreiras tarifárias, os Estados Unidos exercem uma força de expulsão econômica que empurra o mercado brasileiro diretamente para os braços de Pequim.


Nesse cenário, emerge um diferencial econômico brasileiro que é único no tabuleiro global. A China consolidou-se como a maior parceira comercial da esmagadora maioria das nações do planeta, ostentando uma posição superavitária quase universal em suas relações bilaterais. O Brasil, por sua vez, figura como uma das raras e notórias exceções a essa regra, sustentando um superávit comercial estrutural contra os chineses. Essa dinâmica decorre da dependência estratégica que a economia asiática possui em relação às commodities brasileiras, pilares essenciais para a segurança alimentar e energética daquele país. É essa relação de dependência mútua, e não de subordinação, que confere ao Brasil um poder de barganha raramente disponível a outras economias emergentes diante de Pequim.


Ao constatar o fechamento parcial ou o encarecimento do canal norte-americano, a
diplomacia comercial e o empresariado brasileiro encontram todos os incentivos racionais
para aprofundar e diversificar as relações diretas com a China. Para Pequim, a decisão de
Washington funciona como uma janela de oportunidade geopolítica, aberta em duas frentes complementares e simultâneas. Na frente comercial, a tarifação americana encarece bens e desgasta a confiança mútua construída ao longo de décadas, e a China aproveita esse vácuo para ocupar rapidamente o espaço deixado no mercado brasileiro, sobretudo no fornecimento de manufaturados e tecnologia. Na frente geopolítica, o isolamento de um parceiro histórico na América Latina, motivado por interesses setoriais microeconômicos dentro dos próprios Estados Unidos, abre espaço para que Pequim consolide sua liderança no Sul Global e estimule o uso de moedas locais nas trocas comerciais, contornando gradualmente o dólar como referência de troca.


Filosoficamente, o desenvolvimento de parcerias entre atores econômicos de pesos
assimétricos depende, antes de tudo, do reconhecimento mútuo da interdependência.
Quando a maior potência econômica do mundo age sob a premissa de um jogo de soma
zero, ignorando que o vendedor depende tanto do cliente quanto este depende do produto, o colapso da cooperação torna-se o resultado natural, quase inevitável, dessa miopia. A lógica é simples e histórica: toda relação comercial assimétrica que ignora a reciprocidade tende a empurrar a parte mais fraca para o concorrente mais paciente.


A imposição de tarifas ao Brasil, motivada pela salvaguarda de lobbies domésticos específicos, desvela assim uma assustadora miopia estratégica por parte de Washington.
No esforço de proteger mercados setoriais marginais, os Estados Unidos sacrificam sua
influência na maior economia da América Latina, aceleram o avanço de seu maior
concorrente sistêmico e demonstram, mais uma vez, que na complexa teia da economia
globalizada o isolacionismo e a contradição estratégica costumam cobrar um preço alto e imediato.